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Começo bem o novo ano


Começo bem o novo ano.

E olhem que ainda não vai nesta crônica o que de melhor me aconteceu — coisa de amiga do peito anunciada, presentão dos deuses.

Saio pela manhã para cumprimentar chef Alfredo (lembram-se de "Convite ao Fred’s Burger"?) em seu novo boteco na rua Gravatá e sou apresentado a um professor de matemática que de início não me pareceu em muito bons termos com a tabuada: eu dava uns setenta a ele, mas a verdade é que o homem navega numa boa para os oitenta e dois, sem grandes rugas no rosto.

Receita quase nenhuma.

Assim que acorda, dá um longo giro pelo Boulevard dos Tamarindos, em Marechal Hermes, conversa com os amigos, come de tudo mas sem exagero, não facilita com as horas do sono, não fuma, bebe pouco, passa duas horas na internet a cada noite visitando sítios literários e baixando os poemas dos nossos maiores no gênero. E lê muito, sempre. De qualquer modo, o mais importante, segundo ele, é que mora há quarenta e nove anos com uma mulher de ouro.

Ao perceber que podia lançar suas pérolas entre nós, desatou a declamar Augusto dos Anjos, depois de pegar pelo cangote um comentário de chef Alfredo sobre o suicídio de um amigo comum. Viu a cara de Drummond estampada em minha camiseta branca e atacou com "A máquina do mundo". Depois conversamos sobre Machado e Bilac cronistas, lidos, relidos e treslidos ao longo de toda a sua vida adulta.

O nosso professor estava realmente numa alegria só, não tinha o hábito de encontrar no bairro pessoas afinadas com ele nesse prazer sem tamanho em conversar sobre livros e autores. Quis saber muito sobre mim, e passei-lhe o endereço internético do meu Galho de Arruda, com cuidados, com muitos cuidados.

Oitenta e dois anos...

Ficamos nisso quase duas horas, à porta do boteco, despertando a curiosidade dos transeuntes. Pela animação ruidosa desse tesouro vivo, não há dúvida. Dava uma inveja boa tanta disponibilidade pessoal para a felicidade, que é sempre um momento entre outros momentos, sem firulas nem rancores secretos.

Vejam só.

Cabelos brancos, óculos escuros, muleta sob cada um dos braços, perna direita amputada, prótese na outra — sem exagero, levei um tempo enorme para dar-me conta desses detalhes. Não é para menos. Durante todo o tempo em que estivemos juntos, não fez a mais pálida menção à sua deficiência física. Nem era com ele.

Quando finalmente partiu, numa agilidade humilhante, ainda livrou vários corpos de um homem de meia-idade que se arrastava como um verme atrás dele sob o sol escaldante.


[1.1.2008]

Luiz Guerra
Enviado por Luiz Guerra em 02/01/2008
Código do texto: T800185

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Sobre o autor
Luiz Guerra
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 71 anos
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