O folclórico arrependido

Às vezes eu me pergunto quais seriam as inspirações das minhas autoras e autores favoritos. Por exemplo, em quê o grande autor Monteiro Lobato se inspirou para elaborar o protagonista do conto “O engraçado arrependido”, que está presente no clássico “Urupês”, livro publicado em 1918? Certa vez, num exercício de imaginação, cogitei que Lobato talvez tivesse utilizado o porviroscópio (tecnologia de ficção científica presente na controversa obra dele “O Presidente Negro”) e visto o futuro distante (em relação a ele) do estado da Bahia. Ele acabou (por acidente ou não, vai saber) escutando entrevistas que torcedores de clubes de futebol davam à rádio local. Um torcedor chamou mais atenção que os demais, por causa de suas falas cheias de pabulagem e extravagâncias (ah, os eufemismos…).

É claro que acompanhado do porviroscópio deveria existir um “contextoscópio” que deixasse Lobato bem informado a respeito do contexto do futebol brasileiro e internacional. Um imprescindível contexto: o torcedor fanfarrão torce para um clube de futebol da Bahia. É um time considerado importante no futebol regional, mas o consenso não o considera como parte da “elite” do futebol brasileiro. Outro imprescindível contexto: há determinados clubes que fazem parte da “elite” do futebol europeu. Mais um contexto essencial: considera-se que há um abismo técnico e financeiro entre o futebol europeu e o futebol brasileiro, em que evidentemente o primeiro está bem acima do segundo.

O contextoscópio informou Lobato sobre tudo isso, o que o fez perceber logo por que as falas desse torcedor singular soariam ridículas, tolas e alvos de chacota.

Acredito que Lobato talvez tenha escutado o que eu escutei durante minha infância e adolescência: o torcedor singular costumava ligar para emissoras de rádio para expressar o amor pelo seu clube de futebol. Mas ele nunca parava por aí. Sempre emitia “opiniões” que causavam riso ou desdém. Num determinado dia, ele ligou para um programa radiofônico e disse:

- Meu time é melhor do que Real Madrid e Barcelona!

Como o contextoscópio deve ter mostrado a Lobato, o clube dele sequer estava na elite do futebol nacional. Como poderia, então, ser melhor do que dois clubes que fazem parte da elite do futebol europeu?

O apresentador do programa o repreendeu:

- Vou desligar o telefone, você só liga para falar essas coisas!

Isso causava risos no ouvinte, até em torcedores do mesmo clube que ele.

Esse torcedor repetiu coisas semelhantes por muito tempo nessa e em outras rádios. Ele se tornou famoso e um torcedor ilustre desse clube. Seria um torcedor “maluco”. Criou para si a imagem de uma pessoa folclórica. O dicionário define “folclórico” como uma pessoa que carece de seriedade. Aparentemente, ele gostava de ser visto assim.

Porém, como Lobato viu no porviroscópio, isso acabou se virando contra ele alguns anos depois.

Ele almejava um cargo importante na direção do seu clube de coração. E era necessário ter votos dos torcedores que são sócios. No entanto, um cargo com esse nível de relevância exigia pessoas que fossem prudentes e sérias. Ou seja, assim como Pontes, o personagem principal de “O engraçado arrependido”, que “só aos trinta e dois anos de idade entrou a pensar seriamente na vida”, o torcedor fanfarrão, mais velho, percebeu que teria que ser levado a sério. Como ele queria suceder o atual mandatário do clube, o primeiro passo seria criticar o modo como a atual direção montava o time, que não estava bem no campeonato.

- Esse time que está aí precisa urgentemente de novos laterais e volantes. Está muito ruim. - disse o torcedor folclórico que queria deixar de ser folclórico.

- Mas você não dizia que seu time era melhor que Real Madrid e Barcelona? Melhor que Manchester United, Liverpool, Milan…?

Tal pergunta o desarmou. E foi assim em qualquer lugar onde ele deu entrevista. Ele tentava ser levado a sério, mas ninguém o levava a sério, nem a imprensa, nem os torcedores, nem o próprio clube que ele amava. Por anos inutilmente tentou construir a imagem de que era brincalhão, mas que separava a hora da brincadeira e a hora dos assuntos sérios.

Nunca conseguiu chegar ao cargo que queria. Porém, deve ter comovido Lobato.

RoniPereira
Enviado por RoniPereira em 08/02/2024
Reeditado em 08/02/2024
Código do texto: T7994630
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