Antissemitismo na Bahia (2)

O jornal noticiou que uma mulher entrou na loja de uma comerciante judia, em Arraial d’Ajuda, cidade na Bahia, e a acusou de ser “sionista assassina de crianças”. A publicação não explica qual a lógica de responsabilizar uma lojista no interior do Brasil pelas atrocidades que ocorrem na Faixa de Gaza, a milhares de quilômetros, desde que Israel começou a retaliar o ataque surpresa do grupo terrorista Hamas. Tentei procurar a lógica; não achei nada. Minha mãe me mandou olhar no armário. Olhei e não achei. Minha mãe disse: “se eu for aí olhar, vou esfregar na sua cara”. Mas ela olhou e também não viu nada.

Há um vídeo dessa violência. A agressora está visivelmente alterada e precisou ser contida por outra pessoa. Pela truculência, percebe-se a total falta de racionalidade. Regis Jovilet define a lógica como “a ciência dos ideais do pensamento, e a arte de aplicá-las corretamente à procura e à demonstração da verdade”.

Poderia com base nessa definição tirar conclusões. No entanto, é melhor deixar que o próprio homem fale. O problema é que Jovilet morreu em 1966! Não sei se o espiritismo é verdadeiro. Acredito que não, mas pode nos oferecer um recurso narrativo. O filósofo francês que me desculpe (ele era católico).

Diretamente do outro mundo, Jovilet afirmou, depois que mostrei o vídeo para ele:

- Ela é a própria personificação da antilógica.

- Em hipótese alguma ela aplicou sua definição, né?

- Não passou nem da premissa, menos ainda aplicou.

Então, raro leitor não adianta procurar a lógica. Seria como procurar um atleticano zombeteiro em dia de vitória do Cruzeiro. E não adianta chamar a mãe para procurar. O talento natural das mães em ver coisas que a gente não vê não funcionaria.

A notícia também informa que a comerciante judia procurou a polícia para fazer um boletim de ocorrência.

Uma mulher entrou em minha loja, me agrediu, me bateu, destruiu minha loja simplesmente pelo fato de seu ser judia. - disse a comerciante.

Antissemitismo é puro ódio. É uma forma de racismo que, como qualquer preconceito odiento, obscurece as “leis ideais do pensamento”. A pessoa mais calma pode se transformar em personificações da antilógica. A consequência é que a vítima do ódio acaba entrando, de maneira forçada, no terreno do absurdo, do pesadelo, que podemos talvez chamar de kafkiano. Como Josef K., que foi detido sem nem saber por quê, a comerciante virou vítima de uma calúnia. A antilógica irrompeu no cotidiano pacato, criando um mundo momentâneo em que a racionalidade fica invisível até aos olhos das mães.

Se o judeu da esquina está sendo acusado na rua de ser “sionista assassino de criança”, ainda que não tenha nada a ver com o governo de Israel, tudo está se tornando possível. Não vai demorar para alguém pedir para que alguma nação denuncie a comerciante no Tribunal de Haia. Ou quem sabe alguma instituição do direito brasileiro acate a denúncia que responsabiliza judeus brasileiros pelo que ocorre a milhares de quilômetros de distância deles. O raro leitor duvida? No campo da antilógica, tudo é possível.

RoniPereira
Enviado por RoniPereira em 04/02/2024
Reeditado em 04/02/2024
Código do texto: T7992040
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