Eu sou completamente inútil, que bom!

 

A sociedade exige muitas coisas: ser produtivo, útil, eficiente, lembrar de data, estar disponível, comprar presente, levar para passear, limpar, usar, consumir, dar extrema atenção e ouvidos, dar prioridades a todos que solicitarem. Somos constantemente lembrados de que devemos ser relevantes, alcançar metas e destacar em meio à multidão, vencer, disputar, correr, ser campeão, que devemos cuidar, ser ponto seguro e firme, estar pronto, sempre sorrir, chorar também vira obrigação. Cheguei a pensar, hoje, sobre importância de ser um completo inútil. Sim ... sim, você leu corretamente: inútil. E preste atenção. Não daquela inutilidade que cantou Ultraje a Rigor

 

Vivo numa sociedade que valoriza tanto a utilidade que acabamos esquecendo o quão vital é também não sermos. Publicou seu livro? Não vai fazer exercício? Não vai casar? Vai ficar sem janta hoje? Vai fazer faculdade? Não faz um regime? Vai prestar vestibular? O que significa tudo isso? Há vertente da inutilidade que não comunga com a preguiça, negligência ou falta de propósito. Ser inútil, neste contexto, é ser capaz de despir-se de todas as expectativas e obrigações sociais, deixando de lado o peso do "ter que" e permitindo ser simplesmente presente.

 

Imagine uma situação em que você está num café, sentado em uma poltrona confortável, absorto em seus pensamentos. Está ali sem um propósito aparente, sem pressa para chegar a algum lugar. Não há lista de tarefas ou objetivos a cumprir. Você está apenas lá, completamente inútil. É nesse estado de ser que a verdadeira conexão com os outros pode florescer.

 

Ao me permitir ser inútil, abro espaço para ouvir e, talvez, ser ouvido de verdade. Sem me preocupar em provar ou não o meu valor. Em estar ou não certo. A inutilidade é liberdade extrema para absorver história, sonho, alegria, tristezas minhas e dos outros, sem julgamento, sem comparação. Tipo conversa de esquina com desconhecido. Não vou poder usar o que ele falou, porque eu nem sei quem é. Nossa presença sincera se torna um presente para quem está ao nosso redor.

 

Nossos relacionamentos se beneficiam quando permitimos sermos inúteis. Dessa hipótese ainda não tenho validação. Mas precisa? Sem a pressão de ter que resolver problemas ou oferecer soluções imediatas, posso simplesmente estar presente. Oferecer ombro para chorar – e chorar junto, ouvido atento para escutar e abraço reconfortante. Chega de ser o "salvador" ou "solucionador de problemas". Eu não estou aqui nem para salvar a mim mesmo, quiçá os que batem a minha porta sofrendo de carência. Abaixo a minha predisposição para ter resposta para tudo.

 

A sociedade pode nos empurrar para a busca incessante de utilidade, mas é importante lembrar que ser inútil, de vez em quando, é uma forma de nutrir a alma. Despir-me da maldade social aí que empoeira todo meu corpo. Vou nesse caso andar nu. Dizem que até esqueceram da ociosidade. Ser ocioso já faz parte da lista de sinônimos para tinhoso, condenado, mofento, coisa à toa, nem sei que diga, tendeiro, desprezível, inimigo, desarrazoado, entre outros.

 

Quando deixamos de lado as máscaras, as personas construídas, permitimos ser vulneráveis e verdadeiramente nos conectarmos com o outro.

 

Seja inútil de vez em quando. Desacelere, abrace o silêncio e esteja presente sem a necessidade de ser produtivo. Lembre-se de que sua verdadeira importância não reside em suas realizações, mas em sua capacidade de se conectar seja com o que for. Seja inútil, ainda bem, e desfrute das profundas e significativas relações que podem surgir dessa entrega despretensiosa.

 

Conselho de um inútil para ...

 

Valdir dos Santos Lopes

16/06/2023

valdirfilosofia
Enviado por valdirfilosofia em 16/06/2023
Reeditado em 16/06/2023
Código do texto: T7815322
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