ERA UMA VEZ UM PADRE CHAMADO JOÃO

Nair Lúcia de Britto

Nair Lúcia de Britto

 

Conheci o Padre João, quando eu tinha catorze anos de idade. Meu pai tinha acabado de comprar uma casa em São Vicente. Muito simples, mas jeitosa. Bem na frente da casa, o Padre João estava começando a construir uma Igreja, a qual ele deu o nome de “Nossa Senhora das Graças”. Começou pelo o altar, com apenas uma cruz. E várias cadeiras de madeira puída, em frente.

 

A rua não tinha asfalto e nem os benefícios mais necessários, como luz por exemplo. Mas meus pais estavam felizes porque com muito sacrifício haviam conseguido ter uma casa própria. Eu nem tanto...

 

Naquela ocasião, eu estudava no “Colégio Coração de Maria”, em Santos. As mensalidades pesavam no orçamento do meu pai; mas ele fazia questão que eu recebesse uma boa formação, e sabia que as freiras seriam as melhores professoras.

 

Nunca saberei agradecer suficientemente ao meu saudoso pai, por isso. Naquele Colégio eu me sentia tão feliz que, na minha formatura, eu chorava sem parar por ter que dar “adeus” à melhor etapa da minha juventude.

 

Mas, como eu dizia, sobre a Igreja que o Padre João começou a construir, em condições tão modestas; eu, seguindo os ensinamentos religiosos que eu recebia, ia à missa todos os domingos.

 

O Padre João era um homem forte, bem alto, de origem estrangeira, a julgar pelo seu sotaque ao falar. Pregava o Evangelho com seriedade  e determinação; era sisudo e de pouca conversa.

 

De pouca conversa, mas de muita ação. O que o Padre João fez naquela Igreja foi um verdadeiro milagre!  Quando terminou a construção da Igreja, sabe o que ele fez?

 Conseguiu que os órgãos públicos colocassem asfalto e luz nas ruas, para que as pessoas pudessem ter melhor acesso à Igreja.

 

Pensam que o Padre João parou por aí? Qual o quê!

 

Do lado da Igreja ele construiu uma creche para as crianças cujas mães tinham que trabalhar fora. As crianças não só estudavam ali, como também tinham café da manhã, almoçavam e no fim da tarde lanchavam.

 

Ele mantinha a  alimentação das crianças,  arrecadando a ajuda dos comerciantes locais. Do açougue ele arrecadava a carne, da mercearia, o arroz e o feijão, da padaria, o pão; e assim por diante.

 

Na hora do recreio era só alegria: as crianças pulavam corda, brincavam de pegador, lenço atrás;  enfim, todas as brincadeiras infantis daquela época. No fim da tarde, as mães alegres e tranquilas vinham buscá-las e lá se iam elas de barriga cheia e felizes da vida...

 

Mas o Padre João era incansável. Em cima da Escola ele construiu outro andar que se constituía de várias salas, onde ocorriam aulas de prendas domésticas tais como arte culinária, corte e costura, bordado, crochê e tricot para que as mulheres pudessem ter uma renda própria e ajudar suas famílias.

 

No mês de junho, o Padre João organizava as quadrilhas e os quitutes próprios das festas juninas, sempre com a colaboração dos fiéis. Eu mesma, escondido do meu pai, dancei, vestida de caipira,  numa dessas quadrilhas.

 

Depois de um longo e árduo trabalho que só trouxe benefícios para a população vicentina qual foi a recompensa que o Padre João recebeu?

 

Pois pasmem! Do dia para a noite o Padre João foi transferido até hoje não sei para onde. Só sei que a primeira coisa que fizeram após a partida dele foi acabar com a Escola das crianças e as do público adulto feminino.

Foi uma lástima que pegou de surpresa as mães que trabalhavam fora, pois aquela era a única creche que havia na cidade e que, pela ação benemérita do Padre João, era gratuita.  

 

O prédio ao lado da Igreja, construído por ele, tornou-se um salão de festas para ser alugado aos noivos que se casavam ali. O que acarretou um barulho até tarde da noite alimentado pelo ruído constante dos fogos de artifício. E, claro, desagradou os moradores do bairro (que não gostavam de bagunça) e os animais de estimação que fugiam, alucinados, sem entender o que era aquilo.

 

Deixei de ir à Igreja, deixei de assistir missa ; em solidariedade ao Padre João, pela ingratidão e injustiça que recebeu. Passei muitos anos, assim, ausente da Igreja.

Até que conheci o Padre Robson pela TV Pai Eterno. Seus sermões e seu sonho tão bonito  de construir uma grande Igreja que acolhesse cristãos de todas as partes do Brasil me  cativou e comoveu. Como uma filha pródiga, voltei à Igreja  Católica por causa de Padre Robson!

 

 E o que aconteceu com ele? Outra grande injustiça, semelhante a que fizeram com o querido Padre João. E a injustiça não se cansou de se fazer valer. Atingiu o Arcebispo da Paraíba, Dom Aldo di Cillo Pagoto, que ao lado de Zilda Arns só fez bem à população.

 

Hoje eu estou plenamente consciente de que a Igreja Católica é a Casa de Deus. Único lugar onde a Hóstia é consagrada e o milagre da Fé acontece, relembrando as palavras de Jesus “Comam, bebam, isto é meu corpo e meu sangue. Façam isto em memória de mim!”

 

Que aqueles que não têm fé  na Igreja Católica não queiram espalhar sua descrença. Porque todos os cristãos que  têm a esperança de um dia alcançar o reino dos céus têm  a mais linda esperança desta vida.

 

O que a Igreja precisa fazer é corrigir seus erros e  as más interpretações da Bíblia. Impedir que ocorram tantas injustiças justamente com seus melhores ministros.  

A Igreja Católica é a Escola Divina.   

      

    

 Arte: Francisco de Zurbarán

Pintor barroco, espanhol

 

Nair Lúcia de Britto
Enviado por Nair Lúcia de Britto em 13/05/2023
Reeditado em 13/05/2023
Código do texto: T7787624
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2023. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.