MÁGOA REGADA

Texto de Fael Velloso

 

Ele estava parado na portaria do prédio há uns dez minutos, encarando as nuvens cinzas que se amontoavam sobre seu condomínio. Estava sem forças para subir. Estava sem vontade de entrar em casa. Sabia que lá, assim que girasse a chave na fechadura, a abrisse a porta, com aquele ranger que já o irritava, sua energia iria lá no chão. E suas costas pesariam.

 

Sentou-se no banco de pedra recém-pintado pelo zelador. A gatinha que sempre se aproximava para ser afagada, foi aos poucos se aproximando, e se entrelaçando nas suas pernas, enchendo sua calça preta de pelos brancos. Ele respirou fundo, e fez cafuné atrás de suas orelhas. Ela ronronou, e deitou-se com a barriga para cima, toda esticada, para ganhar mais carinho. Mas ele ignorou. Ele respirou fundo novamente, e encarou o céu.

 

Eram quase dez da noite. Ele não costumava chegar neste horário. Neste horário, em outros dias, ele estaria diante da tv, sentado próximo À tomada enquanto seu celular carregava, buscando filmes para assistir no final da noite. Mas agora, naquele dia, ele estava sem saco para filmes. Estava sem saco para qualquer coisa que fosse tomar sua atenção, ou que o fizesse pensar demais na sua própria vida. Isso o seu trabalho já se dava o trabalho de fazer.

 

Resolveu subir. Sentiu aquela pontada no estômago, que sempre precedia a crise de ansiedade, mas continuou subindo. Não havia elevador. Parece que nos anos 60, para se ter elevador, era necessário ter um número certo de andares, coisa que até hoje também parece acontecer.

 

Parou no segundo andar. E encarou sua porta. O papai Noel que sua esposa tinha colocado ali o encarava de volta. Ele desviou o olhar para as suas chaves. E entrou no apartamento. Sua esposa estava lá, sentada no sofá, assistindo a um reality  de casamentos. Ele apenas sorriu levemente, e foi para o quarto. Ela sabia que ele num estava num bom dia. Aliás, aquela semana inteira havia sido difícil. Algo se quebrou ali. Algo que eles não sabiam se teriam cola para tentar consertar, pois se não, de que adiantaria juntar os cacos?

 

Ele foi tomar banho. Em silêncio. Sabendo que saindo dali, sentiria enjoô, e que no dia seguinte, tudo seria igual novamente.  Ela sentiu vontade de chorar e mudou de canal. Ele fechou os olhos e deixou que a água gelada batesse nas suas costas, aliviando quase que em nada sua tensão. Ela pensou no que fez, e em como fora fraca.

 

A confiança. Esta já foi. Não voltaria tão cedo. E se um dia, quem sabe, voltasse, nunca mais seria a mesma de antes. Os cacos já não mais se encaixavam.

 

Fael Velloso
Enviado por Fael Velloso em 01/03/2023
Código do texto: T7730620
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