A (re-)VOLTA DOS NEGROS

A (re)VOLTA DOS NEGROS

"...os Negros vão voltar, / nesse

Brasil... / os Negros vão voltar /

com as próprias mãos".

"BEBETO" MONSUETO (Rio, 1974)

Mais um texto derivado DE SONHO, quase tudo o que escrevo ultimamente tem um deles por origem, inspiração. Neste, de hoje "toco violão"... sei disso porque acordei "à meia-hora", meia-noite e meia desta segunda-feira, 21/nov. e o sonho se deu depois disso. Ontem se comemorou o Dia da Consciência Negra... tal consciência existe desde que seus ancestrais foram arrancados de sua pátria, sua terra, para se tornarem ESCRAVOS do outro lado do tenebroso Oceano, "estrada para o Inferno". Já o DIA para "lembrarem" a LIBERDADE -- de ser, de viver e de pensar (que poucos possuem) -- este é recente, suponho que do primeiro mandato de Lula, 2003/2006... mas posso estar equivocado.

Minha única certeza é a de que, no Governo desse mulato ou negro Luís Inácio, se deu o reconhecimento inicial (ou final) do VALOR DO NEGRO nesta Nação que lhes nega tudo, até o elementar direito à vida em sociedade. Pra muitos brasileiros, senão quase todos, se os Negros ficarem tão-somente nas favelas, baixadas, "invasões", quilombos, "alagados", está de bom tamanho. Aos indígenas, menos ainda, nem sequer em suas florestas podem viver... não fazem nenhuma falta.

-- "Quilombola vai mostrar / o que é IGUALDADE, / os Negros vão VOLTAR / nesse Brasil... / os Negros, caboclos / e os índios daqui"!, cantava com violão que aprendeu a tocar sozinho o incrível "BEBETO" (Roberto Monsueto de Menezes) em 1974, talvez o Negro MAIS NEGRO que o Rio de Janeiro viu nascer. Durou pouco, como todos os gênios, vivia como andarilho, não tinha onde dormir nem o que comer e cerveja -- que adorava -- não alimenta, muito pelo contrário.

"Bebeto" era uma "biblioteca ambulante" de ANCESTRALIDADE, devia muito de seu Conhecimento a outro Negro genial, o mestre "LUA" -- do Grupo SENZALA carioca, dos mestres "Peixinho" e "Camisa" -- mas "Bebeto" tinha luz própria. "Lua", depois "Lua Rasta" e, antes, "de Canjiquinha", foi pouco valorizado e apreciado em suas andanças pelo Rio, sua Capoeira lúdica, de diversão, já "angoleira", contrastava com a "dança de guerra" vinda de Bimba e divulgada pelo Grupo, à exceção de Marcelo Azevedo, que Deus o tem no Reino da glória.

O Destino nos deu a chance de apreciá-los num duelo de berimbau e violão, ambos exímios percussionistas de todos os instrumentos, "Lua" dando show numa kalimba feita por êle, som belíssimo, em longínqua manhã de 1974 ou 75, em nosso barraco no Morro dos Cabritos, em Copacabana. Meu irmão e eu tivemos AULA de ancestralidade jamais vista... Governos sucessivos -- nesses mais de 400 ANOS -- SUFOCARAM, perseguiram e anularam toda a História e a Cultura negras, sua literatura oral e escrita, culminando nessa pavorosa "Era Bestanaro". Aos escravos devemos tudo: culinária, canto, música, danças, resistência, alegria, apesar dos pesares e dificuldades. Que Lula consiga reverter essa TRAGÉDIA NACIONAL, devolvendo aos Negros (ou pretos, como querem agora) seu "status" DE CONSTRUTORES deste malfadado país, muito antes de qualquer outro povo. Naquela inesquecível manhã cantou "Lua", em protesto contra algo havido entre êles, nunca soubemos ao que se referia:

-- "Me trate com mais respeito, / cumpra a sua obrigação, / eu não sou fofoqueiro, / eu sou é TEU IRMÃO ! / A barra está pesada, moço, / ouça a minha opinião... / e o jogo de Angola / é jogo de LIBERTAÇÃO"!

A kalimba enfeitando o improviso, que mestre "Lua" também sabia ser repentista. Hoje "me sonhei" tocando violão (de qual nada entendo) e recordando "Lua" em depoimento... me preocupa saber o que isso significa ! Logo depois, no sonho, viria um maremoto, "ressaca" com ondas de 4 metros arrastando tudo, pessoas e barcos. Não reconheci a praia, modesta, com uns 10 metros de orla somente... como estará hoje o mestre "Lua Rasta" ?!

"NATO" AZEVEDO (em 21/nov. 2022, 5hs)