SER PERFEITO É CHATO

Sempre tive um pé atrás com relação à literatura de auto ajuda, pois além da qualidade literária duvidosa, na minha opinião só ajuda realmente o autor. Mas reconheço que há boas exceções, especialmente os livros do filósofo Mario Sérgio Cortella.

Não existem soluções milagrosas para ficar rico ou conquistar o amor de seus sonhos como algumas publicações garantem. E ninguém muda 100 % para melhor ou para pior. Afinal, somos seres humanos: falhos, ridículos e limitados, mas com algumas qualidades.

Falo por causa própria. Tenho vários defeitos que não confesso publicamente e algumas qualidades que não exalto. Na vida, tive mais erros do que acertos e não fiz nem a metade da metade da outra metade que poderia ou gostaria de ter feito. Durante um tempo, ostentei nas redes sociais e sites de poesia algo que nunca fui. E por conta disso levei fama de inteligente, culto e até de garanhão, pornográfico, de gay e outras coisas que convém não relatar aqui. Quando na verdade sou de uma simplicidade que beira o caipirismo e de uma timidez que ainda me faz corar em algumas situações. Sem mencionar a chatice.

Por conta de redes sociais e sites de poesia, conheci uma mulher de Belém do Pará, outra de Blumenau SC e uma terceira do interior de São Paulo. Fora as outras que poderia ter namorado, se fosse realmente o garanhão pornográfico citado anteriormente. Não estou com nem uma delas. A primeira foi um deslumbramento. Com a segunda, vivi quatro anos. Pela terceira, larguei a instabilidade de um cargo público para me aventurar numa situação que, entre idas e vindas, me fez voltar para minha cidade de origem.

Se me arrependo? De algumas coisas, sim. Mas se minhas escolhas amorosas não deram certo, tive a oportunidade de conhecer a outra ponta do país, uma realidade muito diferente do que a que vivemos aqui, onde as belezas naturais contratam com a miséria e o calor permanente. Também sai de casa e aprendi a me virar sozinho depois da segunda separação. A última fez um estrago considerável, mas o maior ganho foi ter voltado para junto da minha família. E em todas as situações, não tive medo de arriscar nem me faltou capacidade de adaptação às situações

O que eu quero com todo esse texto confessional: me fazer de coitadinho? Não. Sei do resultado das minhas escolhas.

Conquistar mulheres ingênuas com meus versos e prosas? Também não: tem dias que nem eu mesmo me suporto, que dirá impor minha insuportabilidade a outra pessoa.

Quero dizer que ninguém é perfeito e que ninguém muda totalmente, tornando-se a mais perfeita e bondosa das criaturas, provando que os bestsellers de auto ajuda estavam corretos. Ou se transforma no mais vil e sórdido dos seres humanos por livre e espontânea vontade, para gaudio dos mais pessimistas.

Temos qualidades e defeitos. Em alguns, as primeiras se sobressaem. Em outros, os últimos tomam conta.

Encontrar o equilíbrio parece ser, se não a chave do sucesso, pelo a capacidade de sobrevivência de cada um.

Mesmo com tantos fracassos afetivos - por culpa minha ou não - não me tornei cético ou cínico a ponto de desacreditar no amor. Acho lindo os casais que, independente de opção sexual, conseguem se manter juntos apesar de tudo e apesar deles mesmos - estou me repetindo, mas a frase é boa.

Quanto a mim, apesar das dificuldades e apesar dos dias cinzentos, sobrevivi e vou continuar sobrevivendo. Sempre que estou muito pra baixo, leio e releio um texto do poeta Carpinejar que sempre me ajudou e que recomendo: "Eu sou o melhor no que faço, mas o que faço não é nada bonito", disponível na internet e em seu livro ME AJUDE A CHORAR. Que também recomendo.

Dito isso, que continuemos imperfeitos, orando para que nossos defeitos não se sobreponham às nossas qualidades.

Não vamos agradar a gregos e goianos. Mas, como já disse Nelson Rodrigues: toda unanimidade é burra.

E convenhamos: a perfeição deve ser de uma chatice atroz!