QUEM SERÁ PELA FAVELA?

Dignidade. O morador de qualquer favela sonha com isso. Sobreviventes que que lidam diariamente com a exclusão e ausência de estado. Somos carentes de serviços, no qual o valor da terra é baixo, a educação é nula e o transporte é precário.

Rio de Janeiro, cidade banhada pelo mar e abraçada pelo Cristo Redentor. Geografia privilegiada entre a mata e o mar com belezas naturais. Um povo hospitaleiro e amigo.

Sou brasileiro, sou carioca, nascido e criado na rocinha. Cresci ouvindo as pessoas rotularem que favela é lugar de bandido. É, infelizmente o CEP de uma pessoa ainda gera preconceito. Mas será que o simples fato de morar na favela faz de alguém uma pessoa má?

Aqui onde eu moro nem todo morador fica com portão aberto. Uma semana que tem tiroteio, o indivíduo fica uma semana sem trabalhar. Nunca se sabe quando vai haver uma guerra no morro e o pior é que não tem pra onde ocorrer. Mas crescer em volta do tráfico não significa que você tenha que ser um traficante.

Meu pai trabalhava dirigindo um caminhão de limpeza pública e, nas horas vagas, fazia bicos para entrar uma renda extra. Não era grande coisa já que muitas vezes o salário atrasava e alguns solicitantes o ficam devendo. Mas ele tinha um coração que não cabia no peito e dificilmente negava ajuda a alguém. Minha mãe era manicure de meio período num salão de beleza e saía cedo para trabalhar. Como o movimento do estabelecimento era fraco, ela se dividia lavando e passando roupa das vizinhas que lhe cobriam de elogios pelo trabalho bem feito.

Eu e meus irmãos nossa única obrigação era estudar pra não ser burros. Como eu era o mais velho, tinha obrigação de vigiar os mais novos e impedir de se meter em encrencas. Minha mãe sempre nos ensinou que tínhamos opções, que tudo era questão de fazermos as escolhas certas. Quando voltávamos da escola, auxiliávamos a matriarca nos fazeres domésticos e jogávamos bola no finalzinho da tarde com os moleques da vizinhança.

À noite, quando meu pai retornava do trabalho duro, a gente se reunia para conversar como foi o dia. Seu semblante denunciava sua exaustão, mas ele tinha prazer de estar conosco. Mesmo passando por dificuldades financeiras, sobrava amor. Tentávamos sobreviver diariamente a dura realidade que a vida nos impôs. Eu já quase fui preso por ter sido confundido com um marginal só por causa das minhas vestes simples. Eles só “param” quando você sai desse território ou quando a sua vida é interrompida por uma bala perdida.

A hipocrisia era nítida. As balas perdidas são sempre da polícia. Eles são culpados, pelos tiros perdidos e etc. Já os soldados do tráfico são atiradores perfeitos e de elite. Nunca tem uma bala perdido da parte deles.

“Eu só quero é ser feliz

Andar tranquilamente na favela onde eu nasci,

E poder me orgulhar

E ter a consciência que o pobre tem seu lugar.”

Rap da Felicidade - Cidinho e Doca

Lírio Reluzente
Enviado por Lírio Reluzente em 01/06/2022
Reeditado em 25/03/2024
Código do texto: T7528433
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