SINFONIAS BÁRBARAS

QUE MÚSICA OUVIAM OS “PARISIENSES”?

Nelson Marzullo Tangerini

Uma das principais características do Simbolismo é a musicalidade. E isto encontramos na poesia de Cruz e Sousa, aquele poeta catarinense, filho de escravizados alforriados, que morou no Encantado, subúrbio do Rio de Janeiro, e morreu de tuberculose em Sítio (hoje Antônio Carlos), Minas Gerais, deixando viúva sua esposa Gavita, grávida do 4º filho, João da Cruz e Sousa Jr.

Corrente iniciada na França com Mallarmé e Stefan George, o Simbolismo foi bem representado no Brasil por Cruz e Sousa e Alphonsus de Guimaraens, entre outros.

Ao que parece, o Simbolismo não se esgotou com esses dois poetas. E foi além. Um sem número de poetas recebeu influencias do poeta catarinense ou do poeta mineiro. A musicalidade em dois poetas “parisienses” sugere que pensemos que eles encontraram abrigo na escola simbolista, como veremos abaixo.

Renê Descartes de Medeiros, “o galã da Roda literária do Café Paris”, era um poeta que escrevia sonetos nitidamente próximos ao parnasiano, embora, em alguns momentos, esbarrasse nos muros da escola simbolista. Influenciado pelas ideias de Kant, como vimos num soneto dedicado a seu amigo Nestor Tangerini, publicado neste livro, “Nestor Tangerini e o Café Paris”, deixou, além de “Oração aos seios”, sonetos, mais dois livros - inéditos: um, roubado por um estudioso do Café, e outro em posse de sua filha Rejane.

Obter informações com Rejane, sobre seu pai, tornou-se uma tarefa muito difícil. E é compreensível que ela seja assim.

Publicamos aqui, novamente, um de seus sonetos:

“HARMONIA BÁRBARA

No lírico gingar dos mastros e das quilhas,

Uma nova harmonia espiralava-se no ar...

São notas de volúpia e de amargura, filhas

Do vaivém voluptuoso e irrequieto do mar!

Se a caravela rompe a distância das milhas,

Agitada é a canção, wagneriana, solar,

Mas se está presa a um cais, por cabos, por presilhas,

Estrangula a canção de gemidos sem par!

São notas desiguais, músicas divergentes,

Tendo origem na dor de duas almas doentes,

Que eu, sentindo, comparo a humanas maravilhas:

Wagner, pelo alto mar, no horror dos temporais,

E o doentio Chopin, na murada de um cais

- No lírico gingar dos mastros e das quilhas!...”

Homens cultos e sensíveis, Renê e Sylvio Figueiredo (a seguir), conseguiram fazer com que seus leitores ouvissem, através dos seus versos, a sinfonia magistral desses gênios que, ainda hoje, moldam nossas almas para torná-las mais humanas.

De Sylvio Figueiredo, temos este soneto, do qual transbordam as mágica notas da sinfonia do grande mestre:

“BEETHOVEN

Em plena mata, a tradição o atesta

Ias buscar inspiração e alento,

A nobre fronte torturada e nesta

E na fronte, em tumulto, o pensamento.

Ias ouvir, entre encantado e atento,

Os gorjeios dos pássaros em festa,

Os ais das fontes, o coral do vento,

As sinfonias todas da floresta.

Não! Eu sei que bem mais teu gênio exprime!

Não é terrena a música sublime

Que em vozes deste mundo nunca ouvi!

Alma sonora, como te iludias!

Tu compunhas somente as harmonias

Do outro universo que morava em ti!"

Autodidata, Sylvio Figueiredo, foi jornalista, tradutor, cronista e poeta.

Trabalhou no Jornal do Rio e nas revistas O Cruzeiro e O Malho, onde mostrou sua verve humorística, resultado de sua admiração por Artur Azevedo (romancista e cronista) e Bastos Tigre (poeta), que muito o influenciaram.

Traduziu para nossa língua autores franceses, espanhóis e italianos. Graças a Sylvio, intelectuais brasileiros puderam ler, através do Jornal do Rio, que durou apenas três anos, “O homem do cérebro de ouro”, de Daudet.

Autor dos livros “Sonetos” (de parceira com Luiz Leitão, obra que contém 20 sonetos seus e 20 sonetos de Lili, 1913), “Passos na Areia” (crônicas, 1962), “Contos que a vida escreve” (1931, “Quixote” (sátira, 1934), “Atlantes” (versos, 1943), “Forja” (versos, 1962), “Sonetos” (separata da Academia Fluminense de Letras, da qual foi membro), Sylvio Figueiredo nasceu em Niterói, RJ, a 19 de março de 1891. Faleceu na mesma cidade a 24 de novembro de 1972.

Enfim, que Literatura Brasileira pensamos ter?

Nelson Marzullo Tangerini
Enviado por Nelson Marzullo Tangerini em 26/03/2022
Reeditado em 27/03/2022
Código do texto: T7481581
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