INTROSPECÇÃO SOCIAL

 

         Parar para pensar e refletir são coisas cada vez mais raras nos dias atuais. Novas gerações, contorcionistas, dentro de um labirinto sem saída lógica povoam o insípido, inodoro e incolor tecido imaginário social. No percurso trilhado valores antigos que formaram e sustentaram centenas de gerações anteriores são descartados em nome de uma atualização sem back up. Vivemos a construção de uma história sem memória numa civilização que vai do plástico ao silício passando por uma fibra luminosa, incandescente, quase cega numa ilusão de ótica ultra- acelerada. Já não se consegue acompanhar o que se passou pelo retrovisor, o que ficou para trás ficou, agora é acelerar o futuro incerto a ser vivido num presente de vidro opaco. Um mundo dominado pelas falsas informações que nos são impostas todos os dias como forma de dominação mental. Somos gados encarcerados em currais que cabem na palma da mão, ferrados por uma ideologia cibernética sem volta. Isso nos faz agir compulsoriamente, isolamo-nos em castelos próprios, perdemos a chance de mudar as linhas no mapa da vida porque estamos ocupados demais conosco mesmo.

 

         É isso que as pessoas fazem hoje, constroem muros! Constroem muros em torno de suas vulneráveis fortalezas e trancam-se em suas conchas azuis cintilantes. Vivem em seus mundos fragilizados emocionalmente, ruidosos e melindrados, arrastando correntes por corredores escuros d’alma. Tornaram-se fantasmas de si mesmos, assombram os próprios passos, tortuosos, sem rumo definido que as orientem qual direção seguir, e assim permanecem em torno dos círculos. As muralhas erguidas cada vez mais altas nos fazem esquecer de que juntos nós somamos e separados dividimos! Estamos percorrendo uma longa estrada e os caminhos são diversos, com sonhos vividos pela metade sendo a outra parte uma coisa inatingível. Estamos dentro do olho do furacão em uma espiral de tempo em que tudo parece acelerar sem sentido, e a cada momento tudo envelhece, todos os dias, sem volta, até a chegada final numa proximidade cada vez maior com a morte que nos aguarda sem distinção nem pressa.

 

         Como reverter esse processo de implosão inevitável? Não é fácil, é processual. Ainda caminhamos sem olhar para os lados, isso nos tira a possibilidade de conhecermos quem está adjacente a nós nas trincheiras da guerra pela sobrevivência. Não é que procuremos a eternidade, mas que deixemos um legado positivo para os que virão nos substituir. Algo de permanente além das efemeridades humanas. Qual a missão de nós humanos na terra? Que tipo de seres somos nós? Quando estaremos prontos para realizarmos a grande viagem para além dos limites do nosso próprio centro? O que temos para oferecer uns aos outros a não ser o que nós mesmos somos? Então, qual a razão das máscaras, das representações no palco de nossa existência, nas pegadas deixadas na areia que escorre da ampulheta? O que precisamos fazer realmente até desaparecermos para sempre? “Penso, logo existo”!

Ricardo Mascarenhas
Enviado por Ricardo Mascarenhas em 24/01/2022
Reeditado em 24/01/2022
Código do texto: T7436347
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