A TRAGÉDIA NO BERÇO DO SUINÃ

NUMA ANALOGIA AOS TEMPOS...

Era mais uma dessas manhãs nas quais o sol brilha juntamente à sonoplastia dos pássaros que nos dão o toque de alegria aos ares primaveris.

Enquanto eu passava pelo meu portão, rumo ao acesso da calçada, percebi um burburinho diferente no seio do meu Suinã, aquela árvore lendária,berço de flora e fauna diversas-(Erythrina velutina)-uma árvore de artístico tronco rugoso que cede seus galhos ao perfeito repouso das orquídeas.

No inverno ela nos chama a atenção porque produz flores vermelhas em candelabros,árvore sobre a qual se conta uma lenda indígena,a que relata que o sangue de morte duma índia,gotejado na terra,que fora morta em decorrência dum amor proibido, teria gerado a florescência das rubras flores exóticas.

Ali,sempre é uma festa diversa.

Nos invernos, as maritacas farristas fazem tapetes vermelhos no jardim porque debulham as flores como quem, com muita fome, debulha a jato uma espiga de milho verde.

Beija -flores ligeiros, de todas as cores e tamanhos, tucanos, bem-te-vis, sanhaços, curruíras, todos sempre juntos estão por ali, a desfrutar da dádiva das estações e a desenhar uma convivência de paz.

Mas naquele dia havia ali novos visitantes.

Uma família de saguis-eram três- nunca dantes ali chegada se enfronhava no seio do Suinã com muita avidez.

A princípio me encantei com os macaquinhos, tão singelos que são, mas incrivelmente pude ver e ouvir o desespero dum casal de sabiás, algo bem espalhafatosos.

Agitados e barulhentos plainavam ao redor da árvore e, de repente, pude assistir os dois pássaros em sincronia a juntos investirem como mísseis certeiros em direção à família de saguis que pareciam procurar por algo. Nada adiantou.

Não demorou muito e pude perceber, pelas cascas dos ovinhos caídos de sobre a árvore para a terra e sob a gritaria da impotência dos passarinhos, que os saguis devoravam o ninho dos sabiás em fracções de segundo. Nunca tinha visto nada parecido, assim, ao vivo.

A fome falou mais alto que a força dos mísseis. E vidas foram ceifadas.

Ali existia um ensinamento flagrante.

Na natureza a cadeia alimentar obedece ao instinto animal irracional...e tudo pode ser perdoado.

Já entre os Homens, a racionalidade inteligente agrava os feitos desumanos de todas as ações predadoras, ainda que mimetizadas, a nos permitir que destruamos todos os ninhos por nós construídos sem o mínimo sentimento de ética e auto preservação.

A fome do Homem sobre seu igual é insaciável e hoje, mais do que nunca, ela já se inicia na tragédia perene dos tantos ninhos construídos na invisibilidade dos nossos Suinãs das calçadas.