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Lucrécia

Digo-lhes que me encantei. Me encantei com o conto, me encantei com a estrutura da narrativa, me encantei com os personagens. E digo-lhes que me refiro a um conto de Machado de Assis, e meu leitor, se familiarizado ao universo desse maravilhoso escritor, já pode imaginar um encantamento de desencantos.

Nestas viagens de rumo incerto pela internet, vou ao Youtube e vejo uma entrevista sobre o criador de Dom Casmurro. O crítico Alcides Villaça – estudioso profundo do autor – lembra que Machado não foi um abolicionista, alguém que materializasse uma luta verbal contra o status dos escravocratas. Num tom minimizante (acredito), o crítico falou de Lucrécia, uma mocinha mulata, personagem de  ‘O caso da vara’, no qual, segundo o estudioso, Machado mostra sua posição, matando a pau (a gíria é por minha conta). Acrescento que  em poucas palavras, em poucas linhas.
 
Durante anos, viajei pela literatura afora, lendo textos, comentando, ouvindo comentários. Lucrécia? Não me lembrava... Lembrava-me do conto, do título apenas... Também, nós, muitos de nós professores, passamos a vida produzindo aulas, como, certa vez, me disse um famoso professor aqui da minha terra, cuja nomeada extrapolou nossas fronteiras. O Mário Zágari, quando certa feita lhe reclamei do número excessivo de aulas, ele – que já passara por situação semelhante – me disse: – A gente acaba ficando produtor de aulas.

Sim, produtores, que tantas vezes não temos muito tempo para refletir sobre tudo que falamos, tantas são as aulas, tantos são os alunos, tantas são as tarefas. Salas menores, menos alunos e mais atenção a eles – eis o melhor dos mundos, do qual estamos tão distantes. Num universo desses – com mais tempo, mais calma, mais reflexões – quem sabe parássemos para ver Lucrécia.

Realmente, Lucrécia aparece tão pouco, e é tão importante; talvez seja mesmo um grito machadiano contra a escravatura, um pouco depois, creio, de sua extinção por lei (o conto é de 1891).  Machado foi fundo, diria o crítico Villaça, um intelectual que dá gosto de ouvir.

Não faço spoiler, não. Conto aqui, muito resumidamente, o enredo – sem me furtar a um ou outro comentário.  Damião, um jovem seminarista, entrara no seminário obrigado pelo pai,  e de lá foge. Não sabe para onde ir. Para a casa, jamais. No desespero, perdido na rua, lembra-se de Sinhá Rita, por uma razão para ele  meio vaga, mas isso (leia-se o texto)  se esclarecerá ao longo da narrativa. Atordoado, conta a Sinhá Rita que fugira, não iria voltar e só ela poderia salvá-lo. Sinhá Rita se vê motivada a ajudar o rapaz, quando este lhe diz que o padrinho não ia interceder por ele, pois não ouvia ninguém. Foi como se o jovem, ainda que involuntariamente,  lançasse um desafio.  Ato contínuo, Sinhá Rita manda chamar o amigo João Carneiro, padrinho de Damião, e o incumbe da tarefa de convencer o compadre. Reproduzo um parágrafo genial, em que o narrador flagra João Carneiro – já na casa da amiga– em profundo dilema:

“João Carneiro não se animava a sair, nem podia ficar. Estava entre um puxar de forças opostas. Não lhe importava, em suma, que o rapaz acabasse clérigo, advogado ou médico, ou outra qualquer coisa, vadio que fosse; mas o pior é que lhe cometiam uma luta ingente com os sentimentos mais íntimos do compadre, sem certeza do resultado; e, se este fosse negativo, outra luta com Sinhá Rita, cuja última palavra era ameaçadora: “digo-lhe que ele não volta”. Tinha de haver por força um escândalo. João Carneiro estava com a pupila desvairada, a pálpebra trêmula, o peito ofegante. Os olhares que deitava a Sinhá Rita eram de súplica, mesclados de um tênue raio de censura. Por que lhe não pedia outra cousa? Por que lhe não ordenava que fosse a pé, debaixo de chuva, à Tijuca, ou Jacarepaguá? Mas logo persuadir ao compadre que mudasse a carreira do filho... Conhecia o velho; era capaz de lhe quebrar uma jarra na cara. Ah! Se o rapaz caísse ali, de repente, apoplético, morto! Era uma solução – cruel, é certo, mas definitiva”.

Continuemos. Lucrécia? Falemos dela... Sinhá Rita ganhava a vida ensinando a arte de  fazer rendas. Recebia em casa crias das vizinhas e tinha ela suas próprias crias. Eram crias! É até possível que não fossem escravas... Questão de pequena importância, contextualmente!   Passada a afobação e o desespero da chegada, Simão e Sinhá Rita conversam, e o seminarista conta um chiste. Lucrécia, que tinha parado para prestar atenção,  ri, e Sinhá Rita faz a ameaça – coça de  vara –,  caso a menina não  terminasse as tarefas do dia... Lucrécia era magrinha, tinha  11 anos,  uma queimadura na mão esquerda (de quê? – pensamos) e  uma cicatriz na testa. Damião observou depois que ela tossia para dentro, para não atrapalhar a conversação. Damião promete para si mesmo defender a mocinha. Depois que Carneiro foi cumprir sua tarefa, Damião contou outra anedota. As crias riram. Lucrécia não riu ou,  como diz o narrador, poderia ter escondido o riso.

Mão machucada. Tosse para dentro. Riso para dentro. Sova de varas! Eis a sina de Lucrécia. Uma menina!! Sim, sova de varas... A tarefa de Lucrécia não se cumpriu, e Sinhá Rita, segurando a menina,  pede a Damião que lhe passe a vara. Damião esfriou. Jurara para si mesmo apadrinhar Lucrécia, que só atrasou o trabalho por causa dele.

Que nos fale o narrador:

“- Me acuda, meu sinhô moço!

Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita”. Acaba assim o conto.

O professor Raul Moreira Lélis, em texto da década de 60, menciona que Machado sempre abominou sua condição de gago, epiléptico e mulato – e teria sofrido bullying, diríamos nós.  Sobre a gagueira, há um passo divertido no livro “Português no colégio”, do citado autor, que se vale de Max Fleiuss:

“Conta-se que, um dia, um amigo comum apresentou -o à atriz Ismênia dos Santos. Machado, que estava em bom estado de espírito, começou a conversar fluentemente, com a maior naturalidade. Ismênia espantou-se e, com muita inabilidade, exclamou:

- Ora, veja, “seu” Machado, tinham me dito que o senhor era muito gago e, no entanto, vejo que fala muito bem!...

Machado descontrolou-se, começou a gaguejar como realmente fazia quando estava nervoso e retrucou, áspero:

- Calúnias, minha senhora, calúnias. A mim também me avisaram de que a senhora era muito estúpida, e vejo que não é tanto”.

Sim! Cheio de complexos,discreto, retraído, analista da alma humana. Analista irônico, insinuante, mordaz ao avaliar o mais íntimo de nosso ser. Quase toda a escritura está focada no seminarista, em Sinhá Rita, em Carneiro, dos quais temos ligeiro e incisivo perfil de suas índoles. São humanos, com seus defeitos, seus interesses... O seminarista é, sem dúvida, a personificação do egoísmo, do interesse imediato, em uma sociedade onde defender um negro poderia implicar uma retaliação, risco que ele não podia correr.

De Lucrécia talvez possamos imaginá-la enamorada do seminarista. Por isso se distraiu tanto com os chistes. Talvez... Apenas talvez. Mas Machado não lhe concede uma análise da interioridade – deixa para nós fazê-lo e nos dá as melhores pistas. Certamente terá apanhado muito, muito mesmo.

 Machado,  no citado texto de Lélis, apresenta-se como um ingrato para sua madrasta, a mulata  Inês. Veio a fama e o futuro presidente da Academia Brasileira de Letras a abandou. Ela, que o ensinara a ler e escrever e mandou-o à escola pública, ela que fizera balas e quitandas para o menino vender, ela, a quem ele  chamava de madrinha e de quem procurou se esquecer...

Machado redime-se na pele negra e sofrida de Lucrécia. Ali estava o sofrimento de sua raça, de sua gente. Redime-se? Um pouco, só um pouco.
Walter Rossignoli
Enviado por Walter Rossignoli em 07/01/2021
Reeditado em 08/01/2021
Código do texto: T7153888
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Walter Rossignoli
Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil
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