O não-silêncio dos inocentes
 
     Como no romance, continuamos, nós, o povo da base piramidal, as vítimas...
     E talvez as verossimilhanças não parem por aí.
     Parece também que a lei tem que se servir de um bandido preso para fazer o retrato-falado do solto. E não é isso que a delação-premiada se tornou?
     Parece também que, aqui nessas manhãs do sul do mundo, não nos aceitamos como somos, ainda mais quando vieram falar em direitos homossexuais, em escola “com” partido-s, em repartição da riqueza... A nação vive um dilema interno: uma parte é ele, outra é ela. E o machismo parece voltar a vencer pela força: da propaganda alardeada como a mais pura verdade, da nova lei apresentada como panaceia, da mão forte do herói da República de Curitiba.
     Mas, e essa pode e deve (e é absolutamente essencial para as vítimas) ser a diferença: não devemos obedecer ao Cálice, não!
     Deus meu, ajude nosso povo a fazer perguntas!
     Mas é preciso não fugir daquela, da mais doída, da mais difícil de responder: Para quem?
     Certamente uma seta descendente na usura, nos valores do feijão; certamente a calmaria midiática; certamente a satisfação de curto e médio prazo; certamente essas coisas poderão ser a camuflagem do bandido que tenta fazer a vítima evitar essa pergunta.
     Mas olhar a trajetória humana, ao menos desde o alvorecer burguês; olhar, como um astronauta, o planeta que chora; olhar, como um viajante alado que faz um tour panorâmico, para África pobre, o Haiti, para os BRICS, para a Síria...; olhar a Cidade-Maravilhosa e sentar nos muros da divisão; olhar isso tudo deveria, na modesta opinião desse professor, ser a voz que clama pela resposta à pergunta!
     Continuará o direito que garante a posse privada a rechaçar qualquer pensamento de equilíbrio na balança? E o que é a justiça, afinal?
     Não... De forma alguma quero cair na tentação de demonizar o empreendedorismo! Acho que geladeira é melhor do que mergulhar a carne na banha. Só que... Assim... Não dá para alguém que nutre valores de igualdade não fazer essa pergunta. Não dá!
     A empresa privatizada tá melhor? Ok. Pega a pirâmide, essa maldita e cruel forma que não mente, e responde: para quem?
     Os bandidos, enfim, estão presos? Ok. Mas, quais? Todos?
     Haverá mais feijão na água do pobre? Ok. Mas não será isso ainda uma “camaleonice” para não perguntarmos se a proporção de caviar na mesa do rico não terá aumentado muito mais?
     Sim, sim... Também já não acho mais que vou mudar o mundo sozinho; que necessariamente Marx é o dono da verdade social. Só que também continuo achando que Keynes e Smith e os novos liberais também não; que a coletividade pode mudar a vizinhança, ao menos. Primeiro o diálogo, depois o tapa. O “piquetismo” não deveria ser a primeira opção... Paulo Freire dizia que é o dominado que tem de conscientizar o dominador, ou não? Seremos arrogantes em não assumir essa tarefa?
     Pois é, que entendam a analogia, meus irmãos cristãos, mas parece que a solução da nação é ser gay, permitindo que as forças dialoguem respeitosamente; que a pirâmide, se não consegue de vez virar quadrado, ao menos alargue seu topo.
     E lembremos, Hannibal é brilhante: Enquanto o assassino morre, ele escapa e talvez o povo brasileiro, calado, não sobreviva.
     Perguntar é preciso, mas perguntar certo é crucial!

Outubro de 2016