O crepúsculo é irremediável

O crepúsculo é irremediável. Anuncia a chegada da luz ou da escuridão. Amedronta, entorpece, estremece. Olhava o celular a cada dez minutos esperando notícias, mas o vazio da caixa eletrônica era enlouquecedor. “Mais uma cerveja, por favor!”, servia os clientes no automático, rindo sem rir, conversando sem conversar, corpo ali, mas a mente com aquela venha senhorinha, que insistia em se fazer mais presente que nunca. Os estalos da sinuca era um chamado de consciência para fazer o que precisava ser feito: esperar, observar e agir, quando e se necessário.

A animação autêntica, marca registrada de Maria, vinha na memória, com passos marcados, ritmados e cadenciados – um pé, depois o outro, balançando o corpo e sorrindo com os olhos – girando levemente pelo salão, compondo o compasso do meu coração. Sim, essa senhora é o amor da minha vida. No auge dos seus oitenta e poucos anos, vive a vida de forma ímpar. Viaja, dança, canta, cozinha – um primor na culinária italiana, fazendo massas sensacionais, temperando nossos finais de ano com seu molho mais que especial, mas, sobretudo, Natalina tempera nossa vida com amor incondicional.

O crepúsculo é tensão, o respiro entre o anúncio e o choro; é o grito que não sai, porque a felicidade faz chorar primeiro. A sinuca estala, tenho de fazer o que é preciso: esperar, observar e agir, quando e se necessário. Meu telefone toca, corro para atender. Do outro lado da linha, a voz inconfundível da Maria que mais balança meu coração, pedindo calmamente que eu vá limpar seu casebre singelo noutro dia, porque sabe os Deuses a razão, eu não consegui prestar atenção. O suave enrouquecido daquela voz amaciava meu coração e não me deixava perceber nada mais que o essencial pra minha vida. É amor! Dizia que não estava bem, mas que estava com Deus e com a fé que a guiou até ali. Meu coração doeu segurando o celular, porque me soou despedida suas palavras, mas como sempre gosto de fazer com ela, rompi com a sua fala advertindo-a sobre os olhares indecentes para os enfermeiros. “Vou saber se eles estiverem querendo casamento com a senhora, vó! ‘Tô’ de olho na senhora...”. “Sou velha, mas não morri ainda”, respondeu ela, com tom risonho, mas com a voz estremecida pela dor. “Deus te abençoe, meu filho. Fica com Ele...”. Me abençoou, como em todas as inúmeras vezes que pedi sua benção e subia correndo as escadas de casa, atrasado para estudar, trabalhar, ir para um encontro, ao longo de pelo menos vinte anos da minha existência.

O crepúsculo ainda permanece ali, inerte. Me observando e enquanto eu o observo...

[...]

Nove dias de angústia e informações mal transmitidas se passaram. Era segunda-feira quando o café amargo na xícara trouxe de volta a lembrança que emocionava. Amor de avó é inexplicável, batia no peito a saudade, o medo, a insegurança. Levanto da mesa, recolho a louça, lavo. Roupas no varal. Faxina ao longo do dia em casa, limpeza pesada no bar, que rendeu até a noite. Mas o corpo respondia automaticamente, realizando tarefas de maneira desinteressada, robotizada talvez...

Madrugada adentro, era por volta de três horas e poucos quando o sono insistia em não aparecer. O dia seguinte era o derradeiro: realização de exames, a certeza. Mas, sobretudo, saber se minha jovem senhora estaria noutro momento comigo, me fazendo ouvir suas histórias, dançar suas músicas, anotando receitas que eu nunca fiz. Era doloroso lembrar dela e saber que seu quadro era delicado.

Acordo, a mesa do café já posta, sento-me tratando dos assuntos do bar, falando de compras, entrega de fornecedores, novos uniformes. Nada gritando mais que o silêncio, a falta de informações sobre minha senhora. Não consegui ficar no bar, decidi encontrar minha mãe. Troquei a roupa depois de um banho, vesti principalmente força. Coloquei a máscara, fundamental nos tempos de pandemia, embarquei no ônibus. Sentei à janela, podendo observar o vai e vem das pessoas, andando descuidadamente sem máscaras, outros sem saber que poderiam estar no seu último dia com algum familiar. Cheguei na rodoviária, desembarquei. Dei passos em direção ao centro da cidade e senti meu coração apertar. Eu iria passar em frente a sua casa, descendo as escadas e o pedido de benção iria ficar preso na garganta, porque ela longe dali. O crepúsculo é irremediável.

Raiou o sol e com ele seu brilho mais cintilante trouxe Natalina para casa. Chega do crepúsculo incessante, porque meu mundo estava ali diante dos meus olhos. O crepúsculo é irremediável, mas o brilho do sol é imbatível...

Eduardo Costa (Apresentador)
Enviado por Eduardo Costa (Apresentador) em 19/12/2020
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