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TÚNEL DO TEMPO

                                 TÚNEL DO TEMPO

   Estou chegando aos setenta, mas não é a quantidade de anos que vivi, que fazem com que eu me sinta velho, mas sim as atitudes da maioria do povo desta época.
   Eu juro que não é puro saudosismo, afinal, eu vivi minha infância e juventude em uma época em que a grande maioria do povo não tinha televisão. Ar condicionado? Só quem trabalhava lá para a Zona Sul nas casa dos ricos é que via algum: geladeira; fogão a gás; telefone então nem se fala. Pouca gente tem ideia do que é passar a noite apenas com a luz de um lampião, e esses ainda eram os afortunados, os menos aquinhoados pela sorte, se viravam mesmo era com lamparinas. Na cozinha, quem ia preparar as refeições, tinha as seguintes opções: como sempre, haviam os afortunados que dispunham de um fogareiro à querosene; os remediados, usavam carvão, e a classe menos favorecida só tinha como opção, a lenha.  É preciso que se diga que até mesmo as roupas eram passadas com ferros aquecidos com carvão. Gente, não era fácil! Saneamento básico, só acontecia nos bairros mais próximos do centro. Na grande periferia, isto era praticamente inexistente, logo, os banheiros eram construídos do lado de fora das casas, e de preferência distantes delas, assim, entrava em cena um personagem chamado popularmente de “ourinol”. Você aí, que está lendo esta crônica, deve ter ficado surpreso por nunca ter ouvido esta palavra. Mais tarde, o objeto que ela nomeava, passou a ser chamado de “penico”, era o que se usava quando durante a madrugada a natureza nos cobrava as refeições feitas quase que em sua totalidade com banha de porco. É, amigo, amiga, não era fácil. Por isso lhe garanto que minha frase lá no início não é puro saudosismo, pois sei que nem tudo eram flores, mas acreditem, tinha encantos que todo conforto e tecnologia disponíveis hoje, não substituem.
   O respeito das crianças para com os adultos, parentes mais velhos, professores ou qualquer idoso. Nenhuma pessoa ficava sentada em uma condução deixando um idoso em pé; com certeza deveria haver pessoas que faziam uso de drogas ilícitas, mas ninguém das comunidades os via usando, vendendo ou comprando; não se via tanta gente morrendo de balas perdidas; praticamente qualquer rio ou lagoa, era apropriado para uso; as crianças, ao cair da tarde, praticavam brincadeiras sadias, como passaraio; cabra cega; pera uva ou maçã; queimada; tinha uma cujo nome não recordo, mas dizia “bento que bento é o frade, na boca do forno, tudo o que seu mestre mandar, “fazeremos ” todos; pique cola; pique esconde; e por aí fora. Quando chovia, as avós contavam histórias, que nos encantavam tanto quanto os desenhos da tv hoje. Não vou falar que não havia corrupção na política, porque naquela época eu não entendia nada do assunto, mas com certeza, se havia, a coisa não era escancarada e desavergonhada como é agora. Hoje, os políticos não dão a mínima se vão ser descobertos ou não. Eles criaram uma malha tão sólida de blindagem à sua volta, que mesmo sendo pegos com a boca na botija, nada lhes acontece, Quase do mesmo jeito que às crianças, nem é preciso falar. Todo mundo sabe como estão abarrotadas as instituições de “Proteção à criança e ao adolescente”; o tanto de professores que estão desistindo da carreira por não aguentarem apanhar de alunos em sala de aula.
   Quando as vezes, acontece de ver uma menina de dez, doze anos rebolando sensualmente ao som de um funk, daqueles que eu nomeio de “música da mulher cansada”, pois oitenta por cento da letra, diz “senta, senta, senta, senta”, só varia o local onde é para ela sentar.
   Pois é pessoal, no mais me sinto um garoto, ainda cheio de sonhos e vontade de amar, e viver.
   Com este adendo, despeço-me atenciosamente de vossas senhorias.
   Aldo Silva
Aldo Silva
Enviado por Aldo Silva em 17/10/2020
Código do texto: T7089837
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aldo Silva
Nova Iguaçu - Rio de Janeiro - Brasil
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Aldo Silva