Muitas vezes lembro-me dele, meu querido vovô Juquita.
Tão meigo, e tão doce. Seus abraços eram envolventes. Quando sentava em seu colo, sentia uma segurança absoluta. Seus braços me envolviam mornos, suaves, seu contato era sempre doce.
Sempre muito bem arrumado, seu cabelo cheirava a brilhantina. Até hoje esse cheiro me leva para aquele tempo onde o via andando na rua com seu terno e gravata indo para suas reuniões em Jornais.
Meu avô era Jornalista, escrevia como ninguém! Trancava-se em seu escritório e ficava horas dactilografando naquelas máquinas antigas. E tambem como era diabético, ele gostava de esconder seus docinhos dentro do armário. Enquanto datilografava, passava a perna na familia. Naquela casa nunca tinha um doce!
Lembram-se dessa máquina? Aquela carretilha, não sei se é bem o nome, ia para lá e para cá...com aquele barulhinho tec tec tec.
Ninguém ousava entrar no escritório dele, enquanto preparava artigos para o jornal de Guaratinguetá (onde foi premiado com a chave da cidade) e Caçapava (sua terra natal) onde tinha sua página especial. Inspiradíssimo, inteligentíssimo, cursou uma Faculdade já casado, e se formou Advogado. Por muito tempo teve seu Cartorio do Segundo Oficio, e fazia tambem suas consultinhas extras.
Mas a lembrança mais bonita que tenho, era quando ia passar minhas férias em sua mansão Jundiai, em frente de uma fábrica de vinho. E em sua imensa sala de estar ele colocava na vitrola suas óperas preferidas. Carmen era uma delas, e seguia a musica mexendo com as mãos. Naquela hora meu avô parecia uma figura histórica, seu olhar viajante olhando para a sala vestido em seu elegante pijama cor de vinho com minúsculas bolinhas brancas. Aquele cabelo arrumadinho, a pele linda, um meio sorriso sonhador.
Até hoje ouço o timbre da sua voz! Quando ia visitá -lo, ele me recebia na porta, com aquele abraço de urso, e dizia no meu ouvido: "Ah que saudade minha filha!". No meu quarto lindamente preparado, em cima do meu travesseiro sempre deixava umas coisinhas que comprava nas lojas Americanas: uma pastinha de dentes, um sabonetinho, um perfuminho, um caderninho de notas - puro carinho!
Queria hoje, naquela inocência dos meus 10 anos, (mas com os sentimentos que tenho agora), sentar-me naquela sala e ouvir as óperas olhando aquela figura tão amada ; e ser chamada pela minha avó para o almoço, quando naquela mesa enorme era servido o manjar dos Deuses, precedido de uma prece. Depois do almoco, ele saboreava o famoso "nesquinha" como chamava o seu nescafé , sempre guardando o ultimo golinho para minha avó - quanta ternura naquela prova de amor!
Em outros dias, ficava a ouvir a corrida de cavalos com seu radinho de pilha grudado em seu ouvido, e depois vinha com um dinheirinho dizendo: "Para voce minha filha"! (aquele dia eu sabia que seu cavalo tinha vencido!).
Quando voltava para a casa de meus pais, uma semana depois recebia pelo correio um cartão lindo, me agradecendo pelos dias que passei com eles, sempre com um retratinho dele 3 x 4, e junto seu cartãozinho de Advogado grampeado na cartinha.
Ah! meu querido vovô Juquita! Quanta saudade tenho de você nesse momento! E percebo quantos sentimentos tenho hoje que são seus!