Escalada. Ensaios sobre o coma e o estado vegetativo.

Crônicas Latino-americanas.

Escalada.

“ Partiu, pois, Jacó de Berseba, e foi-se a Harã. E chegou a um lugar onde passou a noite, porque já o sol era posto; e tomou uma das pedras daquele lugar, e a pôs por sua cabeceira, e deitou-se naquele lugar. E sonhou: e eis que era posta na terra uma escada cujo topo tocava nos céus; e eis que os anjos de Deus subiam e desciam por ela. E eis que o SENHOR estava em cima dela...” (Gênesis, 28: 10-13).

Era uma manhã de domingo no charmoso distrito de Miraflores, quando Mateus foi pedalar com a namorada na ciclovia da Avenida José Pardo aproveitando o agradável clima limenho.

O ciclista de 28 anos era amante da natureza e da vida saudável. Vegano e de corpo atlético, fazia meditações diárias e frequentava academia de ginástica quatro vezes na semana.

Num cruzamento nas proximidades do Parque Kennedy foi surpreendido por um taxista que trafegava em alta velocidade e colheu sua bicicleta com uma força brutal, arremessando o esportista para a distância superior a quinze metros.

A namorada observava estática àquele corpo estendido ao solo. Um cambista que trabalhava na calçada acionou o resgate médico que chegou em poucos minutos. A situação era grave, gravíssima. Mateus foi conduzido para a emergência médica de um grande hospital na região central.

Inconsciente, foi entubado e submetido a exames e cirurgia de emergência no crânio.

Mateus abre os olhos e de uma altura aproximada de 20 metros observa a equipe médica e os enfermeiros tentando recuperar sua vida. Confuso e impotente, procura entender o que está acontecendo.

Perdeu completamente a noção do tempo. O relógio não lhe servia para mais nada.

Em uma fase seguinte aparece de pé caminhando num deserto sobre pedras e areia. O sol parecia escaldante, mas ele não sentia frio nem calor - a temperatura era amena como a de um nascer do sol no verão de Montevideo.

Ao longe enxergou uma concentração de pessoas. Todos, incluindo ele trajavam vestes de cores sóbrias, sem costuras ou adereços. Caminhou até o grupo que parecia estar vivendo tranquilamente naquele lugar.

Com sorriso no resto um garoto aparentando ter oito anos de idade lhe recebe com alegria. Era o “Gordo” seu amigo de infância que faleceu de forma repentina. Parecia ter parado no tempo – ele estava exatamente igual como era no tempo de sua morte. A criança estava acompanhada de seus pais, que Mateus não sabia que também já haviam partido para a eternidade. Junto ao grupo estavam outros parentes e amigos da família de “Gordo” e que eram desconhecidos.

Conversaram sobre vários assuntos durante um tempo que é impossível mensurar. Nesse intervalo outra criança do grupo que brincava jogando pedras atinge acidentalmente o rosto de Mateus; o que deveria causar dor e ferimento passou quase despercebido – algo como uma gota de orvalho atingindo sua face.

Mais tarde, como num piscar de olhos Mateus desperta na entrada de um vilarejo antigo que mais parecia uma cidade esquecida no interior da Itália. A paisagem era deslumbrante. Caminhava pelas ruas estreitas e sentiu um cheiro peculiar vindo de uma casa simples. O olfato lhe remeteu à infância e à sua avó materna que sempre o recebia com café fresquinho e pão caseiro.

Entrou pela lateral da residência, e lá estava ela sentada na varanda dos fundos. Seu rosto cintilante, cabelos grisalhos parcialmente presos sob um lenço e o inesquecível sorriso de boas vindas. Como foi agradável repetir aquele abraço que não sentia há mais de 20 anos.

Cantaram juntos e contaram muitas histórias. Em dado momento Mateus pergunta sobre seu avô e seus tios já falecidos:

- Estão por aí. A qualquer momento eles reaparecem. – respondeu de forma despreocupada.

A simpática velhinha o levou a outras casas da vila e lhe apresentou diversas pessoas que fizeram parte em algum momento da vida dela e que Mateus nem imaginava que existissem. Antes de terminar as andanças encontrou o tio “Checho” que caminhava trazendo um cachorro – era a primeira vez que o via se locomovendo normalmente sem usar a cadeira de rodas.

De volta à casa, mesmo sem fome ou sede, experimentou do pão e tomou café acompanhados de gargalhadas com as frases de humor da velhinha:

- Aproveita meu filho, que aqui pode beber e comer à vontade. Nada faz mal e nada engorda.

Num velho banco de madeira ele deitou colocando a cabeça no colo da avó que remexia e massageava seus cabelos. Dormiu profunda e relaxadamente.

Acordou numa mata alta e densa com vários animais selvagens. Andava entre eles sem sentir medo e sem ser molestado. Logo à frente viu uma grande cachoeira e aos pés dela muitas pedras onde estavam concentradas mais de uma centena de pessoas.

Desceu por uma trilha e chegou perto da aglomeração percebendo que ali estava o Apóstolo Paulo ministrando uma palestra para o agrupamento.

Grande satisfação e gozo tomaram conta de seu ser ao poder ver e ouvir de perto um dos ícones da história mundial.

Paulo replicava o que tinha aprendido com Gamaliel; falava sobre a importância de ter dedicado sua missão aos gentios e sobre a perseguição que sofreu em Damasco.

Foi a aula mais importante de sua “vida” (se é que poderia usar esse termo).

A certa altura abaixou a cabeça meditando em tudo que tinha ouvido e foi quando despertou em outro lugar. Estava agora dentro de um jardim belíssimo, semelhante ao Parque Keukenhof na Holanda. Tocava, cheirava e observava as flores quando uma voz doce chamava pelo seu nome. Era sua mãe que falecera de enfarto quatro anos antes durante uma viagem a Trujillo.

Conversaram sobre assuntos tão profundos como nunca tinham feito antes. Percorreram todo o jardim, sentaram na grama e nos bancos. Mesmo depois de tantos beijos e abraços, sua genitora lhe espremeu pelos ombros como se fosse retirar o extrato de seu corpo (ainda que isso não lhe causasse dor).

Abriu os olhos e acordou num leito hospitalar. Duas enfermeiras estavam trocando sua fralda. No horário de visitas ouviu sua irmã e sua namorada comentarem que ele já estava em estado vegetativo há cinco meses.

Mateus queria voltar para o mundo onde estava, mas isso era fora da órbita de suas possibilidades. Só lhe restava permanecer imóvel sentindo dores e angústia; sofria por estar no mundo sem poder fazer parte dele.

Para sua infelicidade, seu cérebro ainda funcionava e meditava.

“Por mim, creio que estamos mortos há muito tempo: morremos no exato momento em que deixamos de ser úteis.” - Jean-Paul Sartre.

Adriano Peralta
Enviado por Adriano Peralta em 28/07/2020
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