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COMPANHEIRA DE BORDO

COMPANHEIRA DE BORDO
Amélia Luz


                          Cá pelas bandas de Minas tomei o ônibus para uma pequena viagem rumo a uma cidade próxima e mais desenvolvida. Tranquilamente cochilei! Olhei a paisagem verdejante nessa época do ano, com seus matizes perfeitos. As serras arroxeadas, as campinas, os montes arredondados polvilhados de gado branco para engorda. Cheguei a um pequeno lugarejo onde o ônibus faz parada e “apeiam” e sobem passageiros.
                           Esperei alguns minutos, motorista conferindo as passagens até que um homem de meia idade entrou com uma bolsa preta na mão. Vestia um uniforme de brim azul escuro com um boné na cabeça. Nas costas da camisa trazia um número de telefone pintado artesanalmente em pincel com tinta branca e um nome, “Zé do Taco”.
                           Ajeitou-se cuidadosamente, colocou a bolsa na poltrona da janela e sentou na do corredor, a meu lado. Estando tudo em ordem o motorista deu a ignição e partimos. Há alguns quilômetros rodados, a bolsa preta começou a se mexer como se lá de dentro tivesse um fantasma que quisesse sair. O passageiro a meu lado ficou espantado tentando controlar o inesperado. Foi então que, de dentro da bolsa um som estranho nos surpreendeu:
                           - Cocorocooóó!!! Cocó... Có... Có... Cororocó!!!
                             O dono da bolsa começou então, inteligentemente a imitar a galinha que transportava, para disfarçar e enganar o motorista e demais passageiros, pois como todos sabem transportar animais em coletivos é proibido por Lei. Quando a galinha começava a cantar, com expressão de comediante, ele imediatamente começava a imitá-la dando a impressão de que o cacarejar vinha da sua boca, por piada ou brincadeira.
                             Assim foi por toda a viagem, cocorocó pra cá e cocorocó pá lá!!! Todos riam curiosos sem entender direito o que se passava. Somente eu, tinha a plena certeza da nossa estranha companheira de bordo porque via a movimentação da bolsa e a agonia da pobrezinha presa e sem ar.
                              Chegando ao lugarejo de descida ele gritou:
                              - Vou “apear” no Retiro Formoso motorista, pare a perua!!!
                               Calmamente o motorista, já acostumado a transportar esse tipo de passageiro, sinalizou e encostou o ônibus esperando que ele descesse.
                               Ele tomou a bolsa apressado e ao levantar a galinha começou a se debater e a cacarejar vigorosamente, assustada pelo que lhe acontecia. O motorista então, olhou fixamente no passageiro e disse com autoridade:
                               - O senhor sabe que é proibido transportar animais em coletivos?
                                 Ao que o passageiro prontamente respondeu:
                               - "Ó Sô Motorista, em pirua eu sei, mas nesse tar de coletivo, o sinhô me ixprica o que é??? Acontece que amanhã é dumingo, é Dia das Mães e eu tô levano a pintada, sabe, uma carijó inté de istimação p´ra  armoçá côa minha mãezinha, já tão veinha!!!. É o presente que guardei prela de uma ninhada de doze!!! A coitada tá cum as hora contadinha, isperano a farofa qui inté deve tá pronta. Se o sinhô quisé pode ir armoçá coagente!"
                                O motorista disfarçou o riso e disse bem humorado:
                                - Dê um abração na sua mãe e da próxima vez vê se arranja um outro presente menos complicado! Essa minha vida de motorista!!!
Amélia Luz
Enviado por Amélia Luz em 07/07/2020
Código do texto: T6999215
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Amélia Luz
Pirapetinga - Minas Gerais - Brasil
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Amélia Luz