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Memória de um armário de jacarandá


Na minha casa, quando eu ainda era bem   menina, havia um armário muito grande na sala de jantar. Era de jacarandá, dizia orgulhosa a minha mãe. Feito sob medida, encomenda do seu padrinho afortunado como presente pelo seu casamento.
O armário era como uma parte da casa. Havia portas na parte de baixo onde mamãe guardava a louça mais cara. Mas uma das prateleiras ela reservava às quitandas, que embrulhava em panos de prato bordados por minha avó. Eram bolos, biscoitos fritos, sequilhos... Sempre havia algo para servir à uma visita inesperada. E como havia visitas inesperadas, que de tanto aparecerem, já eram esperadas. Comadres, vizinhas e até o vigário da paróquia iam às tardes em minha casa. Sempre com um caso interessante ou histórias que corriam "à boca miúda", que à gente pequena, não era dado a saber. As vezes, quando o assunto era sério demais, mamãe gritava Maria, que logo aparecia, limpando as mãos no avental e nos levava dali para ver as galinhas ou para brincar de vestir as bonequinhas que ela mesmo fazia de saco de juta e enfeitava com paninhos coloridos e outros badulaques que ela encontrava pelos cantos da nossa casa.
Mas voltando ao armário, havia na parte mais alta, um lugar onde ficava um grande castiçal, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição e uma coleção de bibelôs de louça, pintados à mão, junto à tacinhas de cristal multicor. Já a parte central era composta por grandes gavetões onde eram guardados um elegante faqueiro reserva, usados em ocasiões especiais; livros de receitas de onde saiam as ideias para o café da tarde; panos de mesa, panos de prato, forrinhos de crochê... e na última gaveta achavam-se toda sorte de utensílios. Era onde se guardava aquilo que precisava ser  fácil de se encontrar ou a bugiganga difícil de se desapegar... Tinha rolo de barbante, pregos e parafusos, abridor de garrafas, torneira de filtro, um ebulidor queimado, rolo de pastel, papéis dobrados e redobrados que eu sempre lia sem compreender o porquê de estarem ainda ali. Era certo encontrar folhinhas de anos já passados, velas usadas de todo tamanho, rolhas, cabos de canecos ou de bules, uma tesourinha enferrujada e até chaves que ninguém sabia mais o que elas abriam. Encontrava-se ali um dial de um rádio "do tempo do onça" como ouvia dos mais velhos e que me faziam viajar em épocas fantasiosas onde só existiam onças sobre a face da terra.
Ah como era fantástico vasculhar todos aqueles trecos... e era genial descobrir com Maria a utilidade para alguns botões perdidos que logo viravam os olhinhos em bonequinhos recortados nos negativos de fotografia. Ela ia me ensinando como fazê-los enquanto eu, um tanto alheia à sua distração, desenhava com alguns tocos de lápis coloridos que também ficavam lá.
Era essa a gaveta que eu gostava de bisbilhotar. Sempre encontrava um objeto desconhecido que me enchia de curiosidade.
O que me alegrava mais era ouvir dos mais velhos a explicação sobre para que serviam coisas antigas encontradas ali como por exemplo o pequeno mata borrão do meu tio avô, a lamparina de funil que papai trouxera da fazenda, passa agulha e dedal que mais tarde fui ter mais contato nas aulas de costura e pesinhos de balança que nunca mais usaram por falta da balança.
Quanta quinquilharia! Muitas sem qualquer serventia... Mas todas com muita história, memórias bem guardadas, na última gaveta do armário de jacarandá!
Cláudia Machado
Enviado por Cláudia Machado em 22/05/2020
Reeditado em 25/05/2020
Código do texto: T6955368
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cláudia Machado
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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