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Pra todos os efeitos, eu não sei onde o tempo está

Todas as manhãs eram como água dentro de bacia. Imutáveis, estáticas e limitadas. Acordar não adiantava nada se o mundo parecia estar dormindo um sono profundo, porém inquieto. A impressão era a de que o maior movimento que se podia fazer durante o dia era abrir os olhos só pra ativar o funcionamento de todo o resto. Como acender uma luz numa sala escura. Só acender. Então tudo permanece no mesmo lugar. Só o pensamento flutuando pelo espaço, indo e voltando, subindo e descendo. Às vezes tomando forma e escapando antes que virasse objeto e engolisse um pedaço do tempo. Não se pode perder um pensamento com a concretude humana, pois pensar vem antes e depois ainda fica, não por nós, mas por si próprio. Se fôssemos tão autônomos quanto nossos pensamentos também seríamos eternos.

Olhou-se no espelho e viu um pouco menos do que antes, pois ultimamente não tem acompanhado o passar dos dias ativamente. Parou de marcar X no calendário. Achando que deu uma pausa. Mas o tempo é persistente e sério, não nos espera na esquina enquanto nos banhamos, comemos e vestimos a melhor roupa. O tempo sempre estava no trabalho antes que chegasse lá e já havia voltado para sua casa antes que tivesse saído do trabalho. Mas agora que estava sempre em casa, onde estava o tempo? Será que havia saído e voltado sem que tivesse percebido? Sorriu com a ideia de estar ali antes do tempo voltar. Mas lembrou-se que ele poderia estar ali, lhe fazendo companhia. Perseguidor sádico. Esfria o café olhando o noticiário. Revira os olhos quando se dá conta de que pode primeiro esfriar o café, bebê-lo e só depois assistir o jornal. Já que é sempre a mesma coisa. O café também. Amanhã irá tomar com leite pra variar.

Daqui a pouco, à tarde, quando o nada já tiver ocupado um terço do seu dia e ainda estiver ocupando os dias dos vizinhos, da rua, do bairro, do país, do mundo, esparrama-se no sofá como se deslizasse pra uma terceira dimensão ainda não afetada. Afetada pelo quê? Procura nos sites, tuítes, nunca passando da primeira frase. Só tem interesse no fim. No fim de quê? Quando disserem, “pode voltar ao normal”. Que normal? Aquilo não era nada normal, viver como se não existissem outras maneiras. Dizem que vivemos outras vidas, em outro tempo e outro espaço. Queria saber como eram essas outras existências. Fingir não bastava. Era necessário tomar banho hoje?

Na TV coloca um filme, com uma sinopse chamativa e alta porcentagem de aceitação. O mocinho encontra a mocinha, perde a mocinha e no final a reencontra. Fim. Cinco horas da tarde. A pior invenção de todas. Levanta-se e vai até a cozinha preparar o almoço. Ou janta? A refeição. Come tentando sentir o sabor mas só sente gosto de comida. Assim é a vida, pensa. Ou pelo menos está sendo. Volta para o quarto, se sentindo invisível aos olhos de alguma presença no resto da casa. Culpa talvez? Abre a rede social e posta uma foto deitado com a legenda “me tirem do tédio”. A tal presença deve ter rido lá na sala. Quem mais pode lhe tirar do tédio? Joga o celular pra longe e fica olhando pro teto branco. Já tentou ser produtivo antes. Mas por que e pra quem? Começa a querer se esvaziar até ficar branco como o teto, mas permanece confuso. O não entendimento precede o pânico de entender algo, como se tivesse tocado na água da bacia. Assusta-se. Quer derramar a água mas tem medo de não mais se ver, mesmo que parado. Então não é só enchê-la de novo? Não é a mesma coisa.

Isso o faz lembrar que o amanhã está chegando, já se transformando no hoje que logo se apagará. Mas não há muita coisa pra ser esquecida. Nem o filme vale a pena ficar na memória. Só fez engolir um pedaço do tempo. Onde poderia ter usado esse pedaço, não sabe. É injusto, diz pra si. O tempo saber o que fazer com a gente, e nós não sabermos o que fazer com ele. Porque não há nada a fazer com ele, a não ser tentar, tolamente, acompanhá-lo através de números, ordem, desejos, gastos e tudo que agora não faz tanta falta como o ar livre. O tempo só não persegue aqueles que não conseguem escapar, ou nem puderam. Esses não precisam mais se preocupar com o preenchimento dos dias.

Resolve dormir, pra ver se consegue de alguma forma escapar, quem sabe encontrar a alternativa que falta aqui no que chamamos de realidade. Quem sabe o tempo não consiga transpor os limites da mente e apenas exista fora dela. Por isso sonha, e resolve que no dia seguinte sonhará acordado também, e só então será como se não estivesse em casa, no trabalho, ou em qualquer lugar em que o tempo esteja. Sem tempo, sem preocupações.
Leandro Pedrosa
Enviado por Leandro Pedrosa em 10/05/2020
Código do texto: T6943374
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Leandro Pedrosa
Fortaleza - Ceará - Brasil, 24 anos
64 textos (1855 leituras)
1 e-livros (18 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/09/20 04:19)
Leandro Pedrosa