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( eu hoje escrevendo esta crônica)
 

CRÔNICA DE QUARENTENA 2

 
    Hoje é terça- feira. Um dia comum, não fosse o fato de estarmos de quarentena há mais de um mês. Não é muito tempo, se considerarmos a quarentena da família de Anne Frank que durou dois anos num porão, quando os nazistas queriam dizimar os judeus na segunda guerra mundial por volta dos anos quarenta.
    Bem, a verdade é que estamos sitiados em nossas casas também no meio de uma guerra, cujo inimigo é invisível e assustador. Tão assustador, ou mais, talvez, que a maldade dos nazistas e, às vezes me pergunto se ficaremos loucos ou morreremos infectados por esse inimigo, o tal covid-19.
    Mas não queria falar sobre esse inimigo que nos encantoa em nossos lares, como em campos de concentração, impedindo-nos de trabalhar, passear, ver os amigos, a família... Impedindo-nos de dar as mãos, de abraçar... Não queria, mas preciso desabafar.
     A guerra tem dessas coisas.  Não gosto de guerra. E nunca tinha vivido uma guerra antes. A diferença das guerras com relação a essa que estamos vivendo, é que naquelas o inimigo é visível. É possível armar emboscadas e pegá-lo e talvez até fugir. Mas o inimigo de agora, o tal covid-19, como é invisível, a gente nunca sabe onde está. Como diz velhos ditados: se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Por isso estamos de quarentena, isolados em nossos quartéis. Nunca desejamos tanto a segurança de nossas casas, embora, ao mesmo tempo desejamos andar livres por ai.  Nessa guerra tem também as trincheiras nas linhas de frente com aqueles que às vezes morrem por nós como Jesus Cristo.
    Já li livros sobre guerra, como o que li recentemente: “A filha do Capitão” do autor José Rodrigues dos Santos que nasceu em Moçambique. O livro narra a sordidez dos que detém o poder à custa do sangue dos inocentes.  Lembro-me ainda das palavras de um personagem combatente de guerra. Ele dizia a um colega que o mais duro não era fazer a guerra, mas sobreviver a ela. O fato é que nas quinhentas e cinquenta e nove páginas do romance eu me angustiava a imaginar os soldados plantados em trincheiras lamacentas da linha de frente de olho no inimigo esperando a hora do ataque. Da mesma forma me angustio agora, afinal não seria isso que está acontecendo com a gente nessa pandemia? Sim estamos numa guerra e a única defesa, ou arma, sei lá, que nos resta é lavar as mãos constantemente ou passar álcool em gel, usar máscaras se precisar sair. Mas o mais seguro é ficar em casa de quarentena, enquanto profissionais da saúde vestem seus uniformes lunáticos para lutarem por nós.
    Como podem notar não é a quarentena que me preocupa. Mas a guerra. Essa guerra silenciosa em que as granadas explodem num simples espirro, uma tosse, um toque de mão... Ou seja, estamos num campo minado. Não com a quarentena, não me preocupo, estou acostumada, pois desde que aposentei vivo praticamente de quarentena. Isso para mim é só um fato diante dessa guerra. A diferença da quarentena de minha aposentadoria com essa quarentena de agora é que naquela eu saia todo dia de manhã para comprar pão com o sol batendo no meu rosto ou o vento e nessa eu não devo sair todo dia para comprar pão e fico dias sem ver o sol e sentir o vento.
    Eu só saio aos sábados e compro alimento para a semana toda, verduras e outras coisas como o lanche de manhã e de tarde. Dessa forma não dá para comprar o sagrado pão francês para sete dias, pois endurece. É verdade que dá para fazer torradinhas que adoro, mas ainda não pensei nisso. Então acabo comprando pão sovado que não endurece e dura alguns dias. Compro também pão de forma, bolachas, biscoito de polvilho. Não faço muitas coisas em casa, não que eu não saiba. Eu sei fazer muitas coisas como, pão de queijo, broas, bolos de vários tipos. Sou uma Amélia bem mineira pra não dizer perfeita. Mas a questão é que estou sem cabeça para fazer essas coisas. Estar numa guerra nos tira um pouco da coragem. Às vezes dá coragem demais. O fato de sair de casa, por exemplo, é um ato de coragem absurda. Não dá para negar. Mas essa coragem acaba tirando todas as outras como preparar com as próprias mãos o lanche da tarde. Prefiro tricotar a tirar a batedeira do armário ou ralar queijo.
    Mas sábado passado eu comprei algumas coisas como tapioca que é goma de mandioca hidratada e pretendo fazer bolinhos assados na Air fryer, um desses aparelhos da era moderna que frita coisas sem gordura. E comprei também aveia e vou fazer panquecas de banana. É mega fit. Sim essas valem a pena.  Mas não é hora de pensar em comida fit. Ou talvez seja. Não sei. Mas confesso que estou com saudade do pão com manteiga de todas as manhãs.
     Meu Deus, isso me assusta, na quarentena só pensamos em comer quando na verdade nem deveria estar falando em comida, pois a mesa de muitos já está vazia com essa pandemia. Em minha cidade mesmo a pastoral da solidariedade já convocou nossas ações concretas para ajudar. Receio que essa guerra será mais dura do que imaginei.
     Tudo é incerto e difícil. Para mim, além das incertezas sobre o fim da guerra, o mais difícil é ter que sair da retaguarda e avançar na linha de frente praticamente exposta ao inimigo, mesmo usando máscaras. Você olha para os lados e não sabe onde ele está. Pode estar ali bem no carrinho do supermercado, nas embalagens...
    Aliás, odeio máscaras, pois não me deixam respirar direito e pior, fica fazendo cócegas no nariz e não posso fazer nada senão aguentar, fazer as compras correndo, voltar pra casa, lavar as mãos, tirar roupas e sapatos, higienizar as compras... Meu Deus é uma loucura total. Não sei como não fiquei maluca ainda. Na verdade não ficarei, pois, se resisto à minha síndrome do pensamento acelerado há anos e, além disso, como disse antes, estou acostumada com a quarentena de minha aposentadoria. O problema é que agora existe o fator guerra e, como sabemos, numa guerra, você pode perder ou ganhar, viver ou morrer... Depende das estratégias...


 



Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 21/04/2020
Reeditado em 21/04/2020
Código do texto: T6924489
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 57 anos
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Sonia de Fátima Machado Silva

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