Perspectivas
  
   Ele aparenta 40 anos, pele negra, traz em seu corpo as marcas da exploração, da brutal exploração em que vive mais um pai de família, sem emprego, sem dignidade, sem lar, sem nome.
     Todos os dias, com sol ou chuva, ele está ali. Só ele sabe o que enfrenta diariamente na quentura daquele braseiro. E só ele sabe da importância disso, afinal é dali que tira o seu sustento, quita o aluguel, se veste e veste seus filhos. Também sabe o quanto que a ausência dos estudos contribuiu para sua atual conjuntura de vida.
     Ainda tem sonhos, quer se formar, ser alguém na vida, porém...é exaustivo passar o dia inteiro numa esquina tentando vender seu “peixe” e retornar para casa quase que com as mãos vazias. É difícil lidar com toda essa pressão social, boletos, filhos, cobranças de todos os tipos... Se ao menos fossem apenas os dois...seria melhor, a barra ficaria menos densa, mas são cinco. A mulher ainda ajuda como pode: uma faxina ali, umas lavadas de roupas acolá, porém nunca é o suficiente. As crianças estão crescendo, cobram roupas melhores - já estão curtas e maltrapilhas;  e sandálias, pois já estão velhas demais – é o 2º prego que colocam nas correias. O que consegue mal dá para se alimentarem...
     Se ao menos o aluguel fosse mais em conta... mas quem quer saber? Não pode pagar? É despejado, há sempre alguém na fila. Mas de uma coisa eles têm certeza: estudar não foi possível, nem ao segundo grau chegaram, mas com seus filhos será diferente. Eles terão de mudar suas realidades através dos próprios estudos. As oportunidades de emprego surgem, todavia são sempre incompatíveis com seu nível de instrução. É verdade que já voltou à escola, sim, mas não conseguiu acompanhar, evadiu novamente. Acredita-se incapaz de ‘terminar os estudos’, mudar de vida, ser alguém, dar sentido à sua existência. Está conformado que nasceu pobre, cresceu pobre e assim morrerá.