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Perdas e Danos
 
Quando há perdas há danos, se não há memória, existe história. Mas se não existisse nem memória, nem história, não haveriam vestígios do homem. Haveriam somente perdas e danos.

Tenho, ultimamente perdido muita coisa. Até coisas desprezíveis, nelas me perco ou me levam. Se levo quase um ano para conquistar uma coisa, levo segundos para perdê-las.

Em resumo, se você cria, você perde. E não adianta subir no palanque para desmentir a teoria do nonsense. O homem perde algo a cada minuto e se perde diante da imensidão de alguma coisa que o cerca.

Não há espaço para todos os sentimentos. Se você encontrar algo puro, inimaginável, sonhador e denso e puder tocá-lo, então já percorremos a metade do caminho.

Não há espaço para tanto amor, por isso ressurgem das cinzas as guerras devastadoras que colocam os espíritos em estado íngreme, prontos para despencar no mais profundo dos abismos.

Minhas perdas e danos são diárias. Criei muito, deixei me envolver demais e agora vejo os danos. Não há critério no mundo que os recupere.

Se ando numa calçada, e ao passar por ela, sei que, alguns segundos depois, a perdi para sempre. Se remoejo meu jardim, sei que daqui há pouco ele se transformará e sei também que acabei de perdê-lo. Em muito pouco tempo serei um candidato em potencial para os danos.

E quem cura e repara esses danos? São as pequenas coisas, que camufladas no coração, ainda sobrevivem, apesar do tempo e das danuras da corrosão quererem levá-las.

Então num belo dia, me vesti de nada - roupa simples e esfarrapada - e fui morar num sopé da montanha. E lá me desliguei das coisas.

E se havia rádio, eu não ouvia, se havia Tv, eu não via. Jornal nem pensar. E pouco a pouco meus laços com o mundo foram se despregando ou desmoronando, como se abate uma casa de tijolos à mostra.

E fiquei incógnito e indiferente. Nada mais tinha importância. Nada mais valia à pena. E se valia, não compensava os esforços. Queria mesmo viver num silêncio absoluto e imponderável.

Agora, acasalado no meu casebre, sei que coisas incríveis acontecem no mundo dos homens. Coisas até inacreditáveis, mas nelas sei que é possível se perder.. Há guerras e revoluções. Mas minha vida se tornou incólume aos danos e perdas. Minha vida é mais simples e de bom gosto.

Nada mais sei, nada mais me comove.

Sei, de coração, que sou vítima das perdas e danos do mundo de hoje. Mas consegui uma saída. Improvisei a solidão como o comando-mestre de coisas simples e pequenas.

Já sei pouco falar ou conversar. Não me lembro direito das grandes silhuetas dos homens. Não conheço ministros e presidentes.

De tudo perdi, por teimosia. Fui de parceria com peças enferrujadas, cair no abismo de criar. E no exato momento em que criei, um mundo de perdas inconsoláveis me abateu.

Hoje, bem sei, nada crio. Nada faço: sou vítima das perdas e danos.

E não subo mais no palanque do povo. Meu espírito floresce sem memória entre as estrelas.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/01/2020
Reeditado em 06/01/2020
Código do texto: T6832130
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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