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Destroços
 
O que nos destrói são as coisas simples. Você pode ser destruído sozinho, mas a lei que impera é a morosidade com que as coisas vão sendo corroídas, amassadas em seu interior, sem repasses, sem alegorias, sem perdão.

O que nos destrói é a lerdeza do calendário. Nunca marque datas. Nunca marque o mês ou tente repassar as horas. A destruição interior não é uma forma só, é um conjunto. Um buquê de flores arminhas e venenosas.

Você acumula poderes e sensações durante um certo tempo no império onde comanda a fragmentação lenta e morosa dos sentidos.

Se você tem um interior ainda em formação, e não importa a idade, estará certamente fadado a perdê-lo numa autodestruição do tempo que é o mestre capaz de todas as coisas. O rei Mago às avessas.

Se você acumula aventuras e sensações vai chegar o dia em que todas as memórias do incógnito estarão partidas, sem elos e sem conjunto, não mais fazendo sentido. O único sentido é aquele que você não percebe.

As coisas acumuladas na vida se perdem no último momento. O grande último momento é o mais crucial de todos, pois em segundos de frações desordenadas, você vê repassar toda sua bagagem de lembranças na alça momentânea do tempo. Uma metralhadora mental.

E ai tudo se perde. Parece que a luz se apagou. Que os sinos tocam sem parar. Que as monções chegaram, que o céu escureceu e que todos, de repente partiram. Você está ali e não está mais.

Você está numa sala onde tubos penetram em seu corpo e desencadeiam uma série de sentimentos que só quem está lá sabe. Ou não sabe, duvida.

Uma vez, num verão, na minha décima tentativa de suicídio, fui levado, numa maca rangenta por corredores mal iluminados até ser colocado numa mesa descoberta e fria. Dessas onde várias pessoas se acotovelam sobre você e começam a sugá-lo desta agonia para outra.

Não há sensação pior do que esta desfragmentação. O mundo começa a rodar e, lá no fundo, bem no fundo, imagens sem nexo começam a passar pela sua cabeça.

E isso parece levar um século. Todos que passaram pela sua vida estão de retorno em noite de gala. O que durou um século para você, levou segundos para os cirurgiões.

Foi para lá que me levaram. Quando acordei dois dias depois, estava numa sala morna com um enfermeiro me solapando de gases e aprumando os tubos, como se afina uma flor.

E a lição fica amena se eu disser que se você está a fim de passar por isso deite na relva, longe dos cidadãos comuns, e termine de vez com tudo?

Nunca vá parar numa sala onde habitam mortos-vivos e acalenta uma sensação de fracasso na sua tentativa de deixar este mundo.

Da próxima vez se o fizer, faça-o repentino e cruel. Desapareça em segundos. Como um corcel alado e prumado de cores brancas.

É a minha próxima meta.
José Kappel
Enviado por José Kappel em 01/01/2020
Reeditado em 06/01/2020
Código do texto: T6832056
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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