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O Ângulo de Maria
 
Qual seria o ângulo da Maria?

Tentei descobrir durante muito tempo. Tempo aquele que me levou a um exercício espiritual que só os homens de boa vontade são afeitos.

Ela vendia, quando pequena, pipocas com o pai.

Ficava sempre ao lado da carrocinha, meio alquebrada e com uma tênue luz em seu bordo. Mal iluminava seu rosto, contorno afeito. Mas as sombras rebatiam trêmulas em sua face de criança.

Procurava nela o tal ângulo. Daria uma foto, uma pintura? Não sei. Meu olhar queria penetrar em seus olhos e retirar dali alguma explicação. Olhos sempre impassíveis e de um verde muito claro.

Tinha 10 anos. Eu 12. Coisa que o tempo leva rapidamente porque da infância a gente só lembra de como demorava a passar e de como passou rapidamente, entreolhos, entrevidas. Um pasmo de verdade.

Qual seria o ângulo de Maria?, eu me perguntava enquanto crescia.

Maria também cresceu. Virou moça. O pai morreu. A mãe também. Não tinha parentes. Só tinha a mim, mas nunca dirigiu um soletrado em minha direção, ao meu ângulo de olhar. Éramos estranhos-desconhecidos e apaziguados pela ansiedade de viver.

Com o tempo ela passou a viver com uma colega. Foi trabalhar numa confecção. Eu fui para a guerra interior por alguns instantes, sem nunca esquecê-la.

Ela prosperou em seu trabalho. Largou a confecção e foi se arrumar sozinha construindo suas próprias roupas.

Mas permaneciam incólumes aqueles olhos verdes, lábios sabor de aspargo e um espírito agreste e longínquo.

Se as pessoas são difíceis de falar, mais difícil é encontrá-las em seu mundo.

Mas que mundo, se tudo se partia e se despedaçava?

Sabia eu que ao lado do sopé de qualquer grandiosa, rochosa, vigorosa e incólume montanha, nascem pequenas flores que, por força da natureza, ao longo do tempo - séculos e séculos - podem se tornar tão fortes e se agigantar diante da pedra, desafiando-a. Ou até destruindo-a.

Não creio em ângulos, mas Maria tinha um e eu jamais em toda a vida consegui descobrir o seu interior, o seu âmago, o que se passava naquele espírito atiço, revolto e doce.

Fui saber de sua morte há pouco tempo. Estava a rodopiar pela pracinha a procura da vida, quando um amigo nada comum me trouxe a notícia.

Maria havia se matado. Uma tesoura afiada e simples, tão tênue e cortante que varou seu corpo pelas próprias mãos.

E eu pensei, qual o ângulo de Maria?

E deduzi que o ângulo de Maria, era o ângulo da morte.

Certas pessoas inocentes não compreendem o mundo, suas conquistas e perdas. Maria era uma delas. Sofregou sua alma à escuridão dos deuses.

E eu que sempre a amei, perdi o sentido das coisas. Perdi um amor impossível, num ângulo irremediável que nunca conheci...
José Kappel
Enviado por José Kappel em 30/12/2019
Reeditado em 06/01/2020
Código do texto: T6830496
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Kappel
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil
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José Kappel

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