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                 A figueira bíblica
                 e a amendoeira




          1. Minha rua, no coração do meu bairro, a Pituba, é enfeitada por frondosas e acolhedoras amendoeiras. Lindas, árvores gigantes, adubadas pelas mãos de Deus, elas ajudam a minorar o calor saárico vindo do asfalto, mormente quando dá meio dia.
          
2. Lindas amendoeiras, todas verdinhas, em requebros insinuantes elas anunciam a passagem do vento. Na hora do crepúsculo, acolhem centenas de periquitinhos  que as procuram para o pernoite seguro. É uma gracinha vê-los chegando em alegres revoadas. 
          
3. Lindas amendoeiras, hospedam, nos seus fornidos galhos, dezenas de saguins. O dia todo, esses pequeninos macacos se divertem, correndo pra lá e pra cá, parecendo acreditar que, ali, eles jamais serão abatidos por caçadores impiedosos.
          
4. Vejo todos esses espetáculos - a dança das amendoeiras, a chegada dos periquitos e a brincadeira dos saguins - da minha ampla varanda, um privilegiado camarote. Sou um felizardo! Na cidade grande, nem sempre a gente tem essa oportunidade.
          
5. Entre as amendoeiras mais próximas, há uma muito estranha, e digo porquê. Essa amendoeira, enorme, compridona, de repente perde todas as suas folhas; fica totalmente pelada! Fica nua durante vários dias. De uma hora para outra, ela aparece de folhagem nova, como se nada lhe tivesse acontecido.
          
6. Quando a vejo totalmente desnuda, olho-a com profundo sentimento de piedade. E pergundo: Só ela? Por que só ela?  Certa ocasião, um amigo meu, agrônomo, me deu uma explicação, mas não entendi bulhufas. E por isso continuo a perguntar: Só ela? Por que só ela?
          
7. Me faço outra pergunta e não me levem a mal por fazê-la: será essa amendoeira uma árvore amaldiçoada? Como fora a figueira da Bíblia, num ato impensado, admito eu, do divino Rabino.  Por que a figueira bíblica sofrera tão rigorosa sanção, os evangelistas Mateus e Marcos respondem. 
          
8. Segundo Mateus,  Jesus, no caminho, sentiu fome. Aproximou-se da figueira mais próxima, mas logo viu que  não havia fruto nos seus galhos. Jesus, zangado, teria dito:"Que ninguém jamais coma de teu fruto; nunca mais nasça de ti algum fruto". Uma iracundia sagrada? Sem explicações.
          
9. A verdade, nua e crua, é que, vez em quando, o flagelo se debruça sobre a amendoeira, minha vizinha, deixando-a quase morta. Ela teria sido amaldiçoada e por motivos que só Deus sabe? Não sei.
          Quero que ela não tenha, nunca, a sorte da figueira.Será ruim para os periquitinhos, pros saguins travessos  e para este cronista: perco uma amendoeira que de certa forma cuida dos meus pulmões.  
Felipe Jucá
Enviado por Felipe Jucá em 08/11/2019
Reeditado em 17/11/2019
Código do texto: T6790253
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Felipe Jucá
Salvador - Bahia - Brasil
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Felipe Jucá

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