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Doenças e moléstias de antanho


Capítulo 04
Doenças e moléstias de antanho
Meu pai usava um bigode cuidadosamente aparado. Não era pretensioso, era cuidadoso, zeloso. Sempre usou, sempre cuidou. Meu pai era autodidata, mas simples, trabalhador, e acessível ao povo sim. Alguns vinham à farmácia e diziam: “O doutor está?” ou “O doutor Clodoaldo está?” Ainda: “Posso falar com o médico?” Mas, isto acontecia não porque ele assim se impunha. Pelo contrário, nascia de certa maneira, da devoção do povo que via nele um homem disposto a lhes pensar as feridas, mitigar as dores, com uma grande dose de benevolência, ervas e poções e por que não dizer altruísmo.
Vai daí, que um dia se apresenta o Chico Pato na farmácia. Ele traz uma senhora da etnia indígena para urgente tratamento. Sintomas: rosto inchado, grosseirões pelo corpo, e afogueamento. Não sabe o que é afogueamento? Vermelhidão no rosto e, respeitemos etiologias, dificuldade para respirar.
O Chico disse: “Dotô, isto é coisa feita, disse o benzedô. Foi feito um trabalho para matá a muié”. Vamos lembrar que era época de Natal. A muié do Chico, digo, a mulher do Chico disse: “O benzedeiro disse que é cânci. Uma mandinga, uma catiça feita à meia noite para ela morrê. Daí, que a infeliz desditosa está com cânci (câncer)”.
A pobre da mulher era frágil, pequenininha. Tão miúda, que meu pai pôs duas cadeiras, uma do lado da outra e ela deitou encolhida e coube perfeitamente, sobrou espaço, aliás. (Ela recusou-se deitar na cama de paciente que tinha na farmácia. Naquela época, farmácias tinham camas hospitalares (!!!!!)). Era assim.
Meu pai foi ao laboratório de manipulação. (Naquela época, farmácias tinham laboratórios de manipulação). Falou com o seu auxiliar, um gaúcho advindo dos pampas, tentando a sorte no Paraná de todas as gentes: “Chimango (apelido), vou te explicar o que está acontecendo. O povo desta senhora tem o costume, em época de Natal e Ano Novo, de matar um leitão, uma galinha e mais o que der, e passam o dia inteiro comendo. Veja bem: durante o ano todo, eles se alimentam normalmente, mas na época das assim chamadas Festas, eles param de trabalhar, de fazer qualquer coisa e cultivam este hábito: comem carne cedo, à tarde, à noite e nos intervalos. Não é nem gulodice, é a cultura deles. Isto não é coisa feita nada, nem câncer. Ela comeu muita carne suína em pouco espaço de tempo. Está tendo uma intoxicação alimentar, com manifestação alérgica. Boldo, injeção antialérgica com B12, hortelã pimenta, camomila, cardo mariano. Pronto vai ficar desfeito o feitiço”.
Prometido e cumprido. Dezoito minutos depois, da administração da injeção, a senhora se levantou das duas cadeiras em si. Grosseirões? Nenhum. Rosto na tonalidade de cor normal. Respirando livremente. Bênção total.
Foi assim que meu pai ganhou o respeito deste povo humilde, mas sincero. Que não quer filas, descaso, e tratamento polido, porém impessoal. Quer quem lhes compreenda, medique e cure. Mesmo que, à época, ainda nenhum diploma de farmacêutico o “Doutor” Clodoaldo pudesse ostentar na parede.
Finalmente, lá se foi nossa indiazinha, aproveitar o resto do feriado (levando a receita infalível de um regime, prescrita pelo pai). Lá se foi o Chico Pato também. Qualquer dia, conto uma nova história dele (há bastantes).
Jeferson Turbay
Enviado por Jeferson Turbay em 08/11/2019
Código do texto: T6790193
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Sobre o autor
Jeferson Turbay
Curitiba - Paraná - Brasil, 63 anos
9 textos (77 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/11/19 13:23)
Jeferson Turbay