Chupe

Ali, no início dos anos 1970 (71, 72, 73, 74) frequentava os estádios de futebol, na cidade. Eram dois mais conhecidos, o Baenão (Remo) e a Curuzu (Paysandu). Ambos, agora, com estruturas deficitárias. Têm quase 80 anos de vida. Não sei bem o tempo – mais ou menos isso.

Ambos ainda estão na ativa, mesmo com toda essa idade.

Esse tempo foi tempo do Campeonato Nacional. Depois acabou. Se não me engano o primeiro campeão nacional foi o Atlético/MG.

Nos começo anos 1970 era um adolescente. Estou idoso, mas fui jovem. Todos fomos crianças, jovens. Quem não for idoso, um dia será.

Estava com meus 16, 17 anos naquela época.

Naquele tempo os torcedores eram bem agressivos. Chamavam palavrões – aos montes. Era difícil encontrar uma mulher no estádio. Raro. Quando alguma se arriscava, os marmanjos faziam coro: –--- Ei gostosa! Boazuda!

Assoviavam, jogavam piadas maliciosas. Alguns a xingavam com impropérios.

Coisa da pré-história.

Quem sofria com os xingamentos eram bandeirinhas e árbitros. Os mais comuns palavrões: Filha da P.....!, Bicha! Corno! Veado! Ladrão!

E me lembro agora dum vendedor de picolés. Moreno. Baixo, nem forte nem franzino.

Mesmo com arquibancada lotada, pouco espaço para circular, o vendedor cumpria sua missão.

Geladeira de isopor no ombro, ele arrumava espaço naquele aglomerado. Ia e voltava com sua geladeira, numa boa. Ganhou prática, um verdadeiro artista popular.

Alguns faziam com ele brincadeira de mau gosto, alguns o chamavam de veado.

Jamais se aborrecia.

----- Vamos chupar, pessoa! Vamos chupar!

Os torcedores já o conheciam, brincavam com ele. Com isso vendia todo o estoque, sem dificuldades.

Ele, o vendedor, sempre descontraído, feliz, nunca se encabulava, não perdia a esportiva – como se diz.

–---- Chupe, meu amigo, chupe enquanto está duro! Chupar o picolé, ele queria dizer.

O pessoal gostava disso, da descontração daquele sujeito humilde, bem-humorado, simpático.

Foi assim aquele tempo, nos campos de futebol. Tinha também a urina, o mijo. Quem ficava na parte de cima da arquibancada, sem ter onde urinar, despejava o líquido (mijo) num saco plástico.

E o atirava. Má sorte daquele sobre quem o saco estourava.

Faltando 15 minutos para o término do jogo, os portões eram abertos. Muitos iam para apreciar esses 15 minutos finais. Sem pagar, claro. Eram chamados de “a turma dos 15, a turma dos milionários”. Gozação contra os mais pobres, apenas isso.

Eram tempos de certa barbárie. Agora, tempos civilizados, isso terminou. E estádio se transformou em artigo de luxo. De desfile de gente importante, de celebridades, dos que querem aparecer.

Ingressos estão caros, hoje. Na decisão da Copa América, no Maracanã (Brasil X Não recordo quem foi seu adversário), me disseram, o ingresso para arquibancada custou R$ 1.200.

Valor maior que o nosso mísero salário mínimo.

Salatiel Hood
Enviado por Salatiel Hood em 24/10/2019
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