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Olhai as aves do céu

     Era uma cinzenta tarde de primavera, chovia fino, peguei um livro e sentei na varanda da frente de casa. O jardim estava bem florido, as exsórias rosas e vermelhas cobriam os pés que se agigantavam pelo muro do quintal. Me ajeitei para começar a leitura, mas fui interrompida por um minúsculo pássaro que cantava alegremente, sobrevoando as flores do meu jardim. Mais um veio se ajuntar a ele, e os dois faziam piruetas no espaço enquanto sugavam com o biquinho marrom o néctar das flores. Fiquei ali paralisada, diante daquela cena tão linda que me veio a mente uma reflexão. A cena me lembrava um trecho da pregação de Jesus aos discípulos: "Olhai os lírios do campo, eles não fiam nem tecem, e nem Salomão em toda sua glória se vestiu como um deles. Olhai as aves do céu, elas não trabalham nem ajuntam em celeiros, mas o pai do céu as alimenta. Quem dirá vós, homens de pouca fé, que sois a maior criação de Deus". Os pequeninos pássaros iam e voltavam. Subiam no fio de energia elétrica da rua, onde paravam para descansar.
    Me lembrei do livro de Érico Veríssimo, "olhai os lírios do campo", que li na minha adolescência e foi um dos que me influenciou a gostar de ler clássicos da literatura Brasileira. Esse livro muitas vezes me fez refletir sobre minha fé. Agora olhando aqueles passarinhos cantando tão alegremente, felizes e alimentados do néctar das flores do meu jardim, sinto que dei minha contribuição para o mundo quando plantei aquelas exsórias rosas e vermelhas. Agora entendo porque Jesus disse que todos somos um com o pai.
   Continuei olhando-os fazendo piruetas em torno daquelas flores, ali
diante dos meus olhos lacrimejados de emoção. Agradeci a Deus por poder ver tão linda cena. Seus corpinhos frágeis, de costa cinzenta e peito amarelado, sumiam dentro da folhagem molhada pela fina chuva de uma tarde típica de primavera. Minha fé se renovava ali naquele instante, tão óbvio para eles, e tão incerto para mim. Assim é, quando a gente fecha os olhos e se joga nos braços de Deus. Assim é, quando a gente crê no que ainda não se vê. "A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem":Hebreus 09,27. As cenas do livro passavam pela minha mente, e deliciosamente me faziam viajar pelo tempo, sentindo tudo o que eu senti quando o li.
   Eles foram embora saciados, sem dizer adeus. Pode ser que amanhã eles voltem. Pode ser que buscarão outras exsórias, em algum lugar por aí, onde tiver um jardim florido, para quem sabe, levar mais alguém a outra reflexão. Vou sentir saudades do canto na minha varanda.
Dalva Pagoto
Enviado por Dalva Pagoto em 09/10/2019
Código do texto: T6765379
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Dalva Pagoto
Duque de Caxias - Rio de Janeiro - Brasil, 57 anos
107 textos (1564 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/10/19 17:27)
Dalva Pagoto