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Seu Biu dos ventiladores

Essa semana eu vi Seu Biu de novo. Estava lá ele na calçadinha de sua casa com os ventiladores que ele vendia sempre assim que começava o verão. Seu Biu é um desses aposentados que sempre a gente encontra pelo bairro, o típico camarada que fica mais na calçada do que dentro de casa. E pra aproveitar o ensejo começou a vender umas bugigangas pra dizer que estava fazendo alguma coisa. Nunca vi sair nenhum ventilador, mas todos os meus vizinhos dizem que já compraram algo dele. Só não lembram o que foi.

Fiquei meio ressabiado com esse dado. Porque tudo o que eu vejo todo santo dia é o homem sentado lá na cadeirinha de balanço e com a mão no bucho como quem espera morrer ali mesmo na calçada enquanto olha a rua. Vez ou outra o vejo rodeado de gente jogando truco ou dominó. E assim seguia a boiada.

Até que um dia parei pra conversar com ele. Cheguei lá. Fingi que estava interessado em um dos ventiladores dele, olhei outro, voltei pra aquele ali... até que falei:

- Ventilador bom, seu Biu!

- Bom? – tornou ele – Rapaz, é porque tu não viu o que eu tinha semana passada. O bicho era potente. Ligasse em casa era capaz de derrubar os copos de vidro.

- É mesmo? Então era potente mesmo.

- Aquilo era um monstro, menino! Sei nem porque vendi.

- Mas o senhor não comprou pra vender?

- Não senhor, meu amigo! Aquele era pra mim. Só que de repente a muié começava a tossir, tosse braba... Daquelas. Me obrigou a vender. Vendi. Mas não era pra ter vendido não...

- Eita, seu Biu. Mas pelo menos deve tá servindo pra alguém né? – respondi tentando encerrar o assunto.

- Ah, isso é... Pelo menos espero. Eu tento vender pro povo coisa boa. – Falou categórico. Calou-se um pouco e ficou se balançando na cadeira.

- Mas esse daqui também é bom, né? – Continuei.

- Como aquele, não! Mas é bom também.

- E quanto o senhor pede nele?

- Rapaz... Quanto tu quer nele?

- Uai, e eu que sei, homem! – respondi surpreso.

- Me diga, rapaz. Quanto tu quer?

Pensei um pouquinho. Olhei pro sujeito. Olhei de novo e a cara era de quem falava sério.

- Sério mesmo, seu Biu?

- Oxe, e eu tô com cara de quem tá brincando? Fale logo, meu patrão. Quanto tu dá nele?

- Deixa eu ver... É um ventilador médio... Seis pás. Preto. Não pega tanta poeira – analisei um pouco mais. E aí eu lembrei que eu não ia comprar ventilador. Quando ia me preparar pra dizer isso, escuto seu Biu chamando o Juarez.

- Ó, Juarez, vem cá! – E Juarez se aproximou de nós já no jeito de quem ia marcar praça com o palito que ele nunca tirava da boca. – Rapaz, conta pra ele do ventilador que eu tava semana passada. Era ou não era uma potência?

- Potência? Aquilo era uma turbina de avião, macho! Eu peguei minha extensão de 15m e liguei...

E lá estávamos nós falando do ventilador de novo. E entrou conversa de marca, de potência e o escambau. Depois falamos do jogo do Santa e seu Biu esculhambou o técnico da seleção. Disse que o melhor técnico do “mundo” era o Zagallo e que seleção como a de 70 não existiria mais.

No fim acabei levando o ventilador por 50 conto e tive que explicar pra mulher pra que danado eu tinha comprado outro se já tinha dois. Tá lá encostado na sala.

Foi então que eu entendi que seu Biu nunca vendeu ventilador. O que ele vendia era a conversa fiada...

Mas ó prosa boa!
Tiago da Silva
Enviado por Tiago da Silva em 16/09/2019
Código do texto: T6746670
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Sobre o autor
Tiago da Silva
Suzano - São Paulo - Brasil, 30 anos
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Tiago da Silva