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SERVIDÃO VOLUNTÁRIA

Libertei mil escravos. Podia ter libertado outros mil se eles soubessem que eram escravos - Harriet Tubman. Qual a sua escravidão?
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Outro dia quebrou uma torneira aqui em casa e eu não conseguia consertar, a água fica pingando e causa-me prejuízos na conta e um desconforto pelo desperdício de água potável.
Pensando aqui, cheguei a conclusão que eu preciso consertar a avaria; precisa de reparos, então entrei num desses sites que tem oferta de mão de obra ou os ditos ‘maridos de aluguel’, são homens que estão a disposição para pequenos consertos em casa.

Nenhuma surpresa após a busca: (Choveu mão de obra em conta). Ok, fiz um orçamento e etc... Lembrei que também precisava consertar a calha do telhado; adaptar o registro da água que está abaixo do nível da calçada e quero que fique acima; preciso também concluir um pedaço de calçada e outros pequenos bicos...

Bem, depois de um tempo de conversa chega-se ao veredito: Valores de mão de obra e materiais a serem comprados. (Valor X). Digo ok, obrigada, vou anotar seu telefone e assim que eu tiver me organizado aqui com o que preciso fazer, comprar e pagar, entro em contato com o senhor....

Ocorre que o senhor não para de vir ao meu portão diariamente, isso mesmo, diariamente e diversas vezes por dia tocando a campainha... Quando eu posso começar a trabalhar? Eu digo, senhor, tenha calma, assim que meus rendimentos estiverem em minha conta, para que eu possa comprar os materiais e também pagar pelos seus serviços eu entro em contato, fique tranquilo, anotei aqui seu contato e entrarei em contato quando tudo estiver de acordo.

Não por satisfeito o senhor um belo dia quando eu acordei ele já estava na frente planando a terra, revolvendo a terra, medindo, colocando as linhas, trouxe todas as ferramentas, carriola, colher de pedreiro, escada e outros apetrechos e eu falei... Bom dia Senhor! Ainda não precisa começar, eu ainda não comprei os materiais e também ainda não recebi meus rendimentos e portanto não tenho como pagar ao senhor (por enquanto), vamos aguardar.

O senhor me diz assim: Eu pensei no seguinte: Eu preciso trabalhar para complementar minha renda (ele é um gari e confidenciou-me que sua renda é um salário mínimo). E mesmo assim ele me disse: Eu vou comprar os materiais (ou alguns) pra eu começar a trabalhar logo, eu preciso trabalhar, eu trago as notas e a senhora depois paga pra mim, sem problemas. Lógico que levei um susto, como assim? Eu não tenho como comprar agora e então com orçamento na mão estou me organizando para realizar o que preciso. O senhor que precisa complementar sua renda (precisa trabalhar) e vai comprar pra mim o material? O que é isso? Todos os dias o senhor está no meu portão: Toca a campainha, posso começar a trabalhar senhora? Putz! O que há com essa gente? O que é isso?
Eles querem trabalho e não salário? Eu não posso entender isso e digo: Não, não senhor, não pode começar, ainda não tenho condições de pagar-lhe o combinado e também ainda não posso comprar os materiais necessários.

O homem não se dá por vencido: Senhora, eu pesquisei, alguns materiais eu posso comprar e ir fazendo, quando concluir a senhora paga tudo junto.

Ai meus sais! Help!
O que há com essa gente do Brasil que tem pedigree de escravo?
Que coisa mais louca meu Deus!
Eu quero dar o trabalho, mas tenho consciência de que para usufruir do trabalho dele eu preciso pagar-lhe.
Não posso fazer isso assim (preciso de um tempo para me organizar) a partir do orçamento que tenho em mãos, etc, etc,...
Mas o ‘senhorzinho’ quer pagar para trabalhar, o que é isso, alguém me explica?
Estou constrangida com a situação e o que é pior, a insistência do senhor em começar o trabalho e comprar as coisas para os meus consertos está me deixando desconsertada.
A única alternativa que tenho neste momento é sair e dizer à ele claramente (e ainda que doa, e vai doer) que não vou mais fazer trabalho algum. Ô messa! Eu agora já não sei como resolver esse atrito, moderar o que será dito? O que é isso São Benedito? Que país é esse que forma essa massa?
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Fico aqui pensando em como resolver a pendenga sem magoa-lo e enquanto isso vou ler... Pqp! Fico (estou), desculpe a palavra, 'emputecida' com isso. Como é que pode? Eu não entendo, eu não entendo! Trabalhar sem receber, o que é pior: PAGAR PARA TRABALHAR?
Fiquei pensando no SLOGAM da campanha: NÃO PENSEM, TRABALHEM!
Eles querem trabalho e não rendimentos?
Eles querem ser escravos?
A vontade que eu tenho é chorar (e eu choro)...

Talvez o Discurso Sobre a Servidão Voluntária (1549). Discours de la servitude volontaire. Étienne de La Boétie (1530-1563) caiba aqui, porque eu já não sei o que fazer.


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NOTA:

São Benedito nasceu perto de Messina, na ilha da Sicília, Itália, no ano de 1526. Benedito significa abençoado. Seus pais foram escravos vindos da Etiópia para a Sicília. Era filho de Cristovão Manasceri e de Diana Larcan. O casal não queria ter filhos para não gerarem mais escravos. O senhor deles, sabendo disso, prometeu que, se eles tivessem um filho, daria a ele a liberdade. Assim, eles tiveram Benedito. E, como prometido, ele foi libertado pelo seu senhor ainda menino.

Benedito foi educado por seus pais na fé cristã. Quando menino, cuidava das ovelhas e sempre aproveitava para rezar o Rosário, ensinado por sua mãe.

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Serpente Angel
Enviado por Serpente Angel em 25/08/2019
Reeditado em 25/08/2019
Código do texto: T6728754
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Serpente Angel
Vernier - Geneva - Suíça
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