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TIJUCANDO

Quase todas as noites saio para a minha rotina de caminhadas, faço um circuito longo pelas ruas principais da Tijuca. Como diria Simão Bacamarte, personagem de Machado de Assis em O Alienista, a Tijuca é o meu universo. Digo além, a Tijuca foi meu berço e, provavelmente, será minha despedida dos prazeres mundanos. Quem, como eu, é enraizado no bairro, não conseguiu escapar à nostalgia e à degradação que foram evoluindo num paralelo que seguiu em progressão geométrica.

Em 2019, observando a Tijuca e seu movimento diário, é possível afirmar que a alma desse histórico e bucólico recanto carioca foram os cinemas de rua. Não tenho dúvidas, os cinemas eram para Tijuca o que os livros são para as bibliotecas. Em seus tempos mais gloriosos, a Tijuca era uma ilha cercada de cinemas por todos os lados. Os que conheci da minha infância até os primeiros anos da minha vida adulta, posso enumerar aqui:

Tijuca 1  e 2
Art-Palácio
Bruni-Tijuca
Metro
Carioca
América
Studio-Tijuca
Tijuca Palace
Cinema III
Comodoro

Quantos cinéfilos brotaram do fértil solo cinematográfico tijucano? Imagino que muitos. E o que os cinemas proporcionavam à velha Tijuca era a aura romântica, uma Praça Saenz Peña de amantes enamorados, de confraternização de amigos. Tudo que foi a magia do bairro, hoje só podemos ver em fotografias amareladas e castigadas pelo passar dos anos. A Tijuca de antigamente, seus cinemas, seu clima de romance, tudo já é tão ficcional como os filmes que rodaram pelas finadas salas de projeção.

Ainda pude viver uma fase maravilhosa, em que os cinemas do bairro faziam reapresentações de filmes antigos. Assisti a E o Vento Levou no Carioca, Butch Cassidy and the Sundance Kid no Studio Tijuca e tantos outros que hoje eu não conseguiria mais ver no telão. Por falar nisso, havia um destaque nos jornais que contemplavam essa categoria de “Reapresentações”.
No imponente Art-Palácio, assisti de Tootsie a Feitiço de Áquila, com o magnífico Rutger Hauer. De um lado ficava a Casa José Silva, uma loja de roupas finas para homens; do outro, a agência de Classificados de O Globo. No Carioca, assisti ao primeiro Indiana Jones e a E o Vento Levou. No inesquecível Cinema América, assisti a Em algum lugar do passado, com o saudoso Christopher Reeve; Octopussy, um 007 com Roger Moore. Lembranças... As plaquinhas com o aviso “ar-condicionado perfeito”. Ar-condicionado de cinema parecia que tinha cheiro, cheiro bom. Talvez, o aroma que ficaria impregnado na memória para  a vida toda. Conversas no Café Palheta, as sessões matutinas de Tom e Jerry que assistia ao lado do meu pai no lendário Metro. Acreditem, assisti ao Mágico de Oz no Metro-Tijuca. É verdade, lembro-me como se fosse ontem... Os cinemas de rua faziam a alma mágica da Tijuca.

Infelizmente, o tempo e a realidade podem elevar como anjos ou condenar como carrascos implacáveis. Não poupam homens nem lugares. Com a Tijuca, estão sendo carrascos. Pela manhã, chego a me confundir pensando que estou no calçadão de Madureira, me desviando de camelôs e da sujeira que atrapalha meus passos; à noite, tudo soa fantasmagórico, esquinas por onde até as recordações têm medo de flutuarem desatentas. Ao anoitecer, a Tijuca deixa de ser um bairro para se resumir a um shopping e a uma praça com nome de militar do século 19, a Praça Varnhagen, salpicada de bares e restaurantes. Fora esses dois pontos, todo o resto se assemelha a um vácuo sideral. A atual Praça Saenz Peña, mesmo depois da retirada das grades horrorosas instaladas pelo Cesar Maia, continua um sepulcro. Durante o dia, move-se carregando o peso das cicatrizes que as transformações causaram em sua face; à noite, morre como quem não deseja mais acordar. O resto são os lamentos de algum falecido Lambe-lambe.

Igrejas, farmácias e laboratórios tomaram os prédios dos antigos cinemas de rua. Que tristeza, que mediocridade doente o futuro nos reservou. Eu vou caminhando, envelhecendo com as ruas tijucanas. Vou tijucando na expectativa de que a minha decadência seja menos melancólica. À noite, na Tijuca, há solidão em tudo. Onde ainda há faíscas de vida, o que reverbera é um suspiro bêbado de falsa alegria, suspiro nostálgico que evita olhar para o desalento faminto e sem banho debaixo das marquises.
Alexandre Coslei
Enviado por Alexandre Coslei em 08/08/2019
Código do texto: T6715108
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Sobre o autor
Alexandre Coslei
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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