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SOBAKA - UMA LENDA DA FAMÍLIA CZORNEI

A festa começou cedo com a bênção de Deus para os noivos na capela da comunidade de Rodeiozinho, interior do município de Papanduva, e os convidados, descendentes de polacos e ucranianos, foram recepcionados no sítio dos pais da noiva.

No cardápio do almoço o tradicional churrasco em espeto de madeira, assado no brasido da lenha de guamirim e bracatinga, acompanhado de pierogi, haluske, maionese, saladas e broa. Para beber cachaça, cerveja e gasosa vermelha.

O sítio era ao lado da estrada geral que corta a cidade, em frente uma pedreira. A criançada corria faceira naquele sábado de sol de final de outono.
- paiê, paiê, podemos ir com o Geraldo tratar as galinhas e os porco? A mãe deixou, a mãe deixou! Falaram eufóricos e ao mesmo tempo Marcos e Telinho.

Seo Libio, o pai, entretido com a conversa dos parentes, respondeu:
- então vão, mas só vocês dois, os pequenos ficam com a mãe!

Geraldo avisou:
- nós vamos pela trilha no meio do mato tio, daí encurtamos um bom trecho do caminho! Mas primeiro temos que despistar os outros, queu não vou ficar carregando os menorzinho depois na volta!

Geraldo com 16 anos de idade, primo do Marcos com 10 e do Telinho com 8 anos, suaram, ou quase, para tentar despistar os pequenos. Um copo de gasosa vermelha bastou para os gêmeos Dane e Nana.

Tita com 6 anos não se deixou enganar tão fácil. Virou um grude. Com uma das mãos agarrou a camiseta do Marcos e não largou. Nem refrigerante, nem tentar as brincadeira de se esconder ou pega-pega. Marcos incomodado com a situação tirou a mão do Tita de sua blusa e deu um empurrão no irmão, que caiu sentado no chão. Tita ficou choramingando enquanto corriam desesperadamente e embrenharam-se num carreiro fechado atrás do paiol.

Enfim livres, o sol ainda brilhava quando adentraram a mata. Uma aventura diferente para Marcos e Telinho. Geraldo tentava mostrar os pássaros que cantavam protegidos pelas folhas e galhos das árvores e explicava qual canto era de cada pássaro. Paravam a todo instante para ver as flores coloridas penduradas nos cipós e vegetação da mata atlântica, escutar os sons alegres e divertidos da mata.

Continuavam caminhando animadamente quando Geraldo olhando ao redor falou:
- cadê o Telinho??

Olharam para trás não viam sinal dele. Voltaram alguns metros na mata fechada e densa, encontraram Telinho parado, olhos vidrados, não se mexia, com cara de assustado, quieto, quase inconsciente. Marcos irritado perguntou empurrando-o:
- porque você parou??

Despertando Telinho gaguejou respondendo e apontando:
- borboletas...

Uma imagem hipnotizante de várias borboletas gigantes vermelhas que circundavam em espiral uma árvore seca, a cena lembrava uma árvore colorida de natal. Marcos quis ir pegar uma, Geraldo que estava pálido, segurou-o. Pensou, mas não disse para os primos que isso não era um bom sinal:
- vamos! Temos que caminhar mais rápido. Tamo na metade do caminho e se continuar neste ritmo vamos chegar no escuro lá em casa!

Saíram rapidamente e continuaram caminhando, o sol não penetrava a mata e a escuridão escondia o carreiro enquanto as borboletas vermelhas cada vez mais rápidas circundavam a árvore seca.

Na escuridão, os tropicões nos galhos e os estalar das folhas secas os assustavam. A conversa parou e um silêncio perturbador pairou sobre eles. O tempo parecia não passar.
- já tô vendo lá no fundo a luz das casas!! Passado algum tempo Geraldo disse aliviado.

A quietude foi quebrada pela conversa animada de novo. Saíram da mata entraram na estrada de chão batido e o sol ainda estava desaparecendo atrás da montanha. Chegaram na casa. Jogaram milho para as galinhas e para os porcos. Tomaram água, foram até a despensa abriram um pote de bolachas pintadas comemorativas á páscoa e saíram falando e comendo.

O sol não se via mais e a escuridão agora tomava conta de tudo. Tinham que voltar para o casamento. Geraldo falou que por segurança iriam voltar pela estrada.

Na estrada rural não tinha iluminação e eles não tinham lanterna. Enquanto comiam as últimas bolachas as poucas luzes das casas ficaram para trás. O cansaço bateu. Uma quietude dominou. Como sussurros, alguns esparsos barulhos de animais se escutavam ao longe. A penumbra da noite trouxe o frio que indicava a chegada do inverno. Caminhavam de braços cruzados, acelerando os passos para aquecer, saíram sem blusa.

No meio da escuridão o som de um caminhar de uma pessoa de botas despertou Geraldo. Olhando ao redor só viu Marcos. Parou. Marcos parou também. Os dois olhando para trás viram uma forte névoa que se aproximava. Alguns passos atrás deles, Telinho olhava a névoa.

O barulho dos passos das botas ao encontro dos pedregulhos na estrada mantinha um padrão monótono e pesado. Chamaram Telinho, que permaneceu estático.

Geraldo gritou com medo:
- quem vem lá?

Não houve resposta. Geraldo estremeceu. A névoa densa começou a formar um redemoinho inverso ao redor do Telinho, que estava paralisado, braços abaixados, olhos azuis arregalados, inertes, pálido, mas suas bochechas estavam vermelhas, sua respiração lenta. Seu cabelo loiro dançava conforme o redemoinho.

Marcos olhava aquela cena assustado. Sem pensar correu, pegou o braço de seu irmão, sentiu aquele calafrio do braço gelado e o puxou. Telinho não se moveu. Puxou novamente. Nada. Telinho estava rígido. A batida da bota na estrada continuava se aproximando, mesmo ritmo de passos pesados, não se via ninguém, a névoa ficava mais forte. O redemoinho ao redor aumentava. Na terceira tentativa, um puxão forte e Telinho se moveu. O redemoinho se dissipou na mesma hora.

Marcos correu puxando o braço do irmão, arrastando-o pela estrada. Quando passaram por Geraldo Telinho estava quase desperto. Corriam desesperados perseguidos pela névoa e pelo som da bota. A calmaria da noite foi quebrada pelos passos dos três correndo e pelo barulho compassado da bota nos pedregulhos da estrada.

Após algum tempo de correria desvairada, no meio daquela escuridão total vislumbraram ao longe uma leve luz do único poste que iluminava a entrada da casa onde acontecia o casamento. Ecoava na pedreira o som de gaita, do triangulo e do bumbo do baile que acontecia no paiol, mas eles não estavam ouvindo essa melodia.

Geraldo falou esbaforido:
- vamos... continuem correndo...  falta pouco...

Ofegantes, chegaram ao quintal da casa. Passam correndo por entre as pessoas, derrubam alguns copos de bebidas. Não escutaram alguém reclamar:
- eita criançada, vão brincar de se esconder em outro lugar!!!

Não escutavam a música que animava o batido das botas no assoalho de madeira do paiol e os berros do jogo de truco. Agacharam atrás de um monte de lenha para secar o fumo da estufa. Ninguém deu atenção para os piás escondidos. Por entre os toco de lenha conseguiam ver a estrada iluminada pelo poste. Angustiados olhavam e aguardavam para ver quem era a pessoa que caminhava atrás deles. Quem era o homem de botas. A névoa chegou. Eles escutavam somente a batida das botas no chão da estrada.

Tensão. A luz do poste piscou uma única vez. Surge uma imagem na névoa. Com olhos arregalados Marcos e Geraldo se olharam. Telinho estava estagnado novamente, seus olhos azuis esbugalhados. Com passos pesados e ritmados, o irritante barulho de botas em contato com as pedras continuava, enquanto um cachorro preto passava lentamente na estrada.

Um cachorro grande, magro e ao mesmo tempo com um corpo robusto e de proporções alongadas. Não tinha mais ninguém com ele.
O cachorro continuou subindo a estrada olhando para frente, quando chegou embaixo da luz do poste, virou sua cabeça em direção ao monte de lenha fixando seus olhos pretos onde eles estavam. Um olhar penetrante, frio, cheio de rancor e ódio.

Desespero. Geraldo e Marcos soltaram um grito sem som, um grito mudo, que perturbou a alma e fez se contorcerem de dor e angústia. Telinho travado. O cachorro continuava andando pela estrada e com a cabeça virada olhando fixamente para o monte de lenha.

No céu espocaram os fogos de artifício do casamento, o paredão da pedreira ecoava seus estrondos. O cachorro preto mostrou com raiva seus dentes para eles e correu desaparecendo na escuridão da estrada. A névoa se dissipou. Marcos e Geraldo voltaram ao normal escutando o som do baile e os gritos do jogo do truco. Marcos ao levantar bateu a cabeça num pedaço de toco de lenha e deu um grito o que acordou Telinho que estava imóvel ainda.

Os três assustados estavam calados.  De repente uma voz grossa e braba perguntou:
- onde vocês estavam? Demoraram hein!!! Era seo Libio.

Dona Miguelina, a mãe, vendo as crianças brancas e assustadas vinha logo atrás do seo Libio e perguntou preocupada:
- tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa??

Marcos e Geraldo se olharam sem saber o que falar, Telinho resmungou:
- o cachorro... o cachorro preto...

Dona Miguelina esmoreceu. Pálida, agarrou Telinho e abraçando forte disse:
- o cachorro preto te achou de novo!!! Mas eu não vou deixar ele te levar!!!

... continua ...



Juvenal Tiodoro
Enviado por Juvenal Tiodoro em 09/07/2019
Código do texto: T6692043
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Juvenal Tiodoro
São José dos Pinhais - Paraná - Brasil, 46 anos
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