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Era o início do ano de 1964, pouco antes do golpe que afastou o socialista Jango e empossou uma junta militar, iniciando a ditadura militar no Brasil que duraria mais de vinte anos. Eu tinha então onze anos, e fazia minha primeira viagem mais longa, para outro estado. Acompanhava meu pai e meu primo Antônio Carlos para uma excursão de negócios pelo sul do Brasil, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Meu primo era o herdeiro e o representante de uma indústria de máquinas para montar caixotes e grandes embalagens. A viagem era para visita comercial a indústrias, vinícolas, grandes armazéns e outros estabelecimentos que utilizassem caixas como embalagem de seus produtos. Antônio Carlos ia vender-lhes máquinas, meu pai era um acompanhante faz-tudo, e dividia com meu primo a tarefa de dirigir. Eu fazia a viagem por puro divertimento, acho que meu pai convencera o sobrinho a levar-me para fazer-me um regalo.

Íamos num DKW-Vemag sedan marrom, um carro distinto naquela época em que dominavam os fuscas. Passávamos por estabelecimentos em muitas cidades, desde as capitais e grandes núcleos urbanos, até pequenos vilarejos interioranos ou mesmo núcleos rurais afastados. Percorremos muitas precárias estradas de terra. Nelas, eram frequentes pontes rústicas que meu pai e meu primo chamavam de pinguelas. Tábuas apoiadas sobre troncos definiam o trilho onde era necessário alinhar as duas rodas do carro. Muito perigoso errar o trilho das tábuas, o carro poderia ficar com a roda presa no vão entre os troncos.

Certa manhã, quando meu primo dirigia, demos com uma longa pinguela. Quando estávamos perto de iniciar a travessia, alinhando o carro com o trilho de tábuas, do outro lado surgiu às pressas um caminhão, à margem do rio, sem ter ainda alcançado o início da pinguela. Embora tivesse chegado ao começo da travessia antes do caminhão do outro lado, Antônio Carlos fez uma manobra rápida e desviou para o acostamento deixando a passagem livre para o caminhão, que sem demora iniciou a travessia. Um pouco surpresos pela rapidez da manobra, esperamos calados por um instante enquanto o caminhão avançava. Meu pai, que em sua vida de militar já tinha sido examinador nas provas práticas para habilitação de novos motoristas, e gostava de dar lições de como dirigir corretamente, com ar professoral perguntou a meu primo:

-- Antônio Carlos, numa situação como essa, quem tem a preferência?

A pergunta era carregada de ardil, estávamos passando uma situação que não parecia ter resposta encontrável nos manuais de direção. Mas após uma passageira hesitação, meu primo respondeu convicto:

-- O maior, tio, o maior!

E os três demos uma boa gargalhada.


Publicado no livro "Canjica de castanha" (2019).
Mário Sérgio de Melo
Enviado por Mário Sérgio de Melo em 26/06/2019
Código do texto: T6682366
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Sobre o autor
Mário Sérgio de Melo
Ponta Grossa - Paraná - Brasil, 67 anos
483 textos (3671 leituras)
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Mário Sérgio de Melo