Caso de polícia (uma ficção verossímil)

- Polícia Militar, às suas ordens!

- Boa noite. Olhe, moro na Vila Estrela, próximo da Balduíno Taques, e tem um desocupado buzinando o carro, a esta hora da madrugada, só pelo gosto de perturbar. O cara vem devagar, buzinando várias vezes, depois acelera o carro e sai cantando os pneus...

- Quem está falando?

- Zé Luiz...

- Nome e endereço completo, por favor! E confirme o número de telefone de onde está falando.

- José Luiz Lima, Rua da Ressaca 69, Vila Estrela, fone 3937-3841.

- Qual é a queixa?

- Já lhe disse, um carro buzinando e acelerando na avenida...

- O veículo continua no local?

- Não, aconteceu duas vezes, logo depois da última vez foi quando liguei...

- O veículo pode nem voltar mais...

- Ele já passou duas vezes, acaba de passar a segunda vez. São 4 e 30 da madrugada, parece ser um desocupado, ou um desvairado, que está procurando se ocupar compartilhando sua perturbação. Com aqueles que, como eu, estão tentando dormir. Daqui a pouco já terei que me levantar para o trabalho...

- Cidadão, melhor voltar a dormir. A esta altura o motorista já deve ter ido pra casa. Deve ser um moleque que acaba de sair de alguma festa.

- Mas ficar zoando assim no mesmo trecho da rua, vai e volta, é demais...

- Melhor voltar a dormir...

- Não vou voltar a dormir enquanto não tomarem uma providência...

- Nesse caso não há providência a ser tomada. Acalme-se...

- Como é que posso ficar calmo se na rua de casa há um delinquente à solta e no outro lado do telefone tem um policial omisso?

- Vá dormir, senão terei de enquadrá-lo por desacato à autoridade.

- Desacato!?... Então não se tem mais o direito de pedir ajuda à polícia quando um baderneiro resolve perturbar o sono dos que se levantam cedo pra trabalhar?

- Qual a sua reclamação e a sua solicitação?

- Ora, que mandem uma viatura para deter e dar uma lição nesse desmiolado...

- A polícia não tem como atender a cada ocorrência desse tipo. Não haveria frota de viaturas que chegasse. E há casos mais graves a serem atendidos.

- Quer dizer que a madrugada da cidade está entregue aos vândalos desocupados, pois a polícia já não tem como fazer nada contra eles?

- Fazemos. A polícia atende as ocorrências de real necessidade.

- E o que é real necessidade? Um vândalo perturbando a estas horas e arriscando provocar um acidente não é real necessidade?

- Não. A estas horas o motorista em questão já deve ter ido dormir. E o senhor também deveria ir dormir, e deixar-nos cuidar dos casos mais sérios.

- Você se responsabiliza pelas consequências do que possa acontecer?

- Aconteceu alguma coisa?

- Ainda não...

- Então...

- Pelo visto o senhor também deveria estar dormindo, e quer voltar a dormir, assim que eu parar de perturbá-lo com o motorista que me perturbou...

- Cuidado como fala, respeito com a autoridade policial! Quem o senhor pensa que é?

- Sou o coronel José Luiz de Lima, já lhe dei meu nome e endereço...

- Coronel?

- Sim, coronel.

- De onde?

- Do Sétimo Batalhão da Polícia de São Paulo. Estou reformado já faz anos, e moro aqui faz poucos meses...

...

O telefone permaneceu mudo por alguns inquietantes instantes. Dava a impressão de que, de seu lado, o policial procurava confirmar a autenticidade da identidade de seu interlocutor. Até que se decidiu:

- Pois não, coronel. Então é diferente. Já estamos enviando uma viatura para averiguar a ocorrência e interrogar o indivíduo. Pode ficar tranquilo. Deveria ter dito logo que era o senhor que estava falando. Mais alguma coisa que possamos fazer?

- É só enviar a viatura...

- Já está a caminho. A polícia agradece o seu contato. Boa noite!

- Boa noite.

E desligaram. No semblante de Zé Luiz um misto de irritação, deboche, cinismo... Ele sabia que aquele batalhão existia mesmo em São Paulo, tinha ouvido falar dele. Existiria algum coronel José Luiz Lima aposentado? Bem provável, ter um nome comum bem que às vezes tinha suas vantagens. Tomara que não viessem interrogá-lo pra confirmar.

Publicado no livro "perrengas princesinas" (2015).