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A festa

Na ânsia de ver um rosto familiar, percorreu o salão com passos apressados e os olhos em todas as direções. Os pensamentos macaqueavam sugerindo uma bebida para disfarçar a solidão, ou se sentar em uma cadeira próxima à porta de saída. Quem sabe se simulasse um encontro com uma das pessoas ali, confundindo propositadamente com um velho  colega... Seria uma forma de aproximação para se sentir menos sozinho e inadequado naquele ambiente. Mas sua mente inquieta trazia um pensamento sobre o outro sem que tivesse o tempo e a  oportunidade de executar alguma das estratégias elucubradas.
Sempre fora tímido e ir á um jubileu de prata era uma das formas de vencer seu estilo "urtigão" de ser.
Pôs as mãos nervosamente nos bolsos do paletó, mas antes ajeitou a gravata que suspeitava, estaria num comprimento antiquado. Fechou os botões do paletó para resolver o problema e cumprimentou, com gestos curtos com a cabeça, alguns rapazes que vinham na sua direção, querendo parecer-se à vontade. Eles não o viram e então ele decidiu se voltar e buscar o banheiro. Ao mesmo tempo que procurava a indicação dos sanitários, se perguntava o que estaria fazendo ali. Foi nesse instante que viu olhos tão meigos na sua direção. Pensou que já os conhecesse, mas não lhe ocorreu nenhum nome. A moça sorriu e ele sentiu o suor brotar-lhe na fronte. Ela não era bonita, mas parecia simpática e talvez fosse uma boa companhia para aquela noite. Logo um rapaz franzino lhe pediu desculpas, o ultrapassou no pequeno corredor e foi abraçando afetuosamente a balzaquiana que o chamou pelo nome num tom de grandes amigos.
Não entendia como não pudera reconhecer ninguém. Eram vinte e cinco anos de formados e isso não era tanto tempo assim. No banheiro aliviou a tensão e decidiu aproveitar a festa. Beberia além da conta, o que não era o seu costume. Afinal era a celebração de aniversário da
 sua graduação embora, como funcionário público, nunca exercera a profissão.
Os garçons, um a um, iam enchendo o seu copo de uísque e quando sentiu que o mundo começava a girar, ouviu os agradecimentos aos presentes pronunciado por um senhor mais idoso, mestre de cerimônias, que falava no alto de um palco preparado para o evento.
Foi só então que percebeu que estivera a noite toda numa festa que não fora convidado... tateou o convite num dos bolsos e pôde ver a confusão que fizera com os logradouros de nomes parecidos. Já passava da meia-noite e se deslocar para o outro endereço não lhe pareceu boa ideia... A música era boa, a comida também. A bebida era farta e estava curtindo mesmo sem falar com ninguém.
Acordou com a luz do dia. Uma senhora, provavelmente da equipe da limpeza, o olhava bem pertinho, com um ar de "nada bons amigos". Sorriu sem graça, saiu ainda meio tonto do salão sem se lembrar direito dos acontecimentos da noite em que passara numa festa de grande estilo, bebendo em sua própria companhia.
Cláudia Machado
Enviado por Cláudia Machado em 19/09/2018
Reeditado em 19/09/2018
Código do texto: T6452920
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cláudia Machado
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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