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A inveja mora ao lado

As moças estavam no último ano da escola, eram de  salas diferentes justamente por serem gêmeas. Havia grande semelhança entre elas pois eram nascidas da mesma placenta, mas Lili sempre achava a irmã melhor em tudo. Silenciosamente olhava-a de longe nos intervalos das aulas.
Pensava com seus botões... Os cabelos dela ficavam sempre bem trançados e o sorriso fácil era o motivo de tanta gente em volta de Lalá. No coro da igreja o agudo da irmã era motivo de admiração da maestrina mas na realidade, ela pensava que não fora escolhida por ser tímida. Um dia ela soltaria a voz e poderia fazer o solo também.
Lili recebia os mesmos carinhos em casa mas quando estavam na presença dos progenitores, corria para prender a atenção, sobretudo do pai. Ele gostava de brincar com os jogos de tabuleiro e de cartas com as meninas, mas ela sempre ouvia da mãe que deveria escolher jogos que pudessem incluir Lalá também. Sentia que a mãe protegia a outra filha.
A moça gostava de Alfredo mas ele lhe dizia que seria seminarista. Certa vez ele estava na igreja e viu Lalá cantando. Os olhos dele não se desgrudavam da bela solista. E quando terminou a missa, ele foi até o grupo e ofertou uma rosa à irmã. Lili não se conteve. Ao chegar em casa esbarrou propositalmente na jarra e deixou que a gata despetalasse a flor. Quando notaram o incidente, era tarde demais.
Muitas vezes ela agira dessa forma mas Lalá nem desconfiava que a irmã lhe invejava em quase tudo.
Sempre fora atenciosa com sua gêmea e não tomava um  sorvete sem a companhia dela. Lalá tinha as melhores notas e muitas vezes ajudava a irmã fazendo os trabalhos escolares e outras tarefas.
A amorosidade da irmã deixava a outra ainda mais angustiada. Quando se deitavam, despediam-se com um beijo, mas os pensamentos de Lili ficavam por ali, feito fantasmas...
- Qualquer um poderia cantar como Lalá... Mas como precisava se dedicar aos estudos, decidiu que deixaria o coral até o fim do ano letivo.

Cláudia Machado


Nota: Esse conto nos chama a atenção para esse sentimento humano, tão corriqueiro quanto ignóbil. Muitos se dizem cristãos e nutrem pelos "irmãos" em Cristo, um sentimento tão contrário aos ensinamentos dEle. As irmãs gêmeas aqui representam essa irmandade, na escola da vida,  formada pela nossa religiosidade (qualquer que seja a religião).
Cláudia Machado
Enviado por Cláudia Machado em 23/08/2018
Reeditado em 24/08/2018
Código do texto: T6428147
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Sobre a autora
Cláudia Machado
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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