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Na barraca do coco

No caminho de volta para casa havia uma barraquinha de coco onde todos os dias, se encontrava lá o "Seu Moacir". Um velhinho magro, mal vestido, mas com um sorriso farto embora carecesse de muitos dentes, diga-se de passagem. Ele não era o vendedor de cocos, mas de uma certa forma vendia cocos.
Todos que por ali passavam, quando não paravam, acenavam entusiasmados para aquele senhor, que mantendo o cigarro de palha no canto da boca, com um olhar risonho, tirava o chapéu num gesto de cumprimento amigo.
Era cativo naquele ponto onde dona Madalena e seu marido estacionavam a Kombi e armavam uma tenda para vender a água refrescante.
Sempre gostei da parada ali, mais até pela prosa. Quando perguntávamos de onde ele veio, respondia timidamente:
- Eu sou daqui mesmo... Desse lugar!
Embora não tivesse estudo, ele falava sobre o sol, sobre a estação boa para pescar, contava curiosidades da lua e das estrelas e até cantava umas cantigas que aprendeu quando criança. Eram poemas de sabedoria que falavam mais que sobre a lida no campo, de colher e de plantar. Falavam de viver.
Sempre tinha alguém puxando conversa, porque ele não era muito falador não. Se o interlocutor não iniciasse um diálogo, ele ficava ali sentado num pedaço de toco com os olhos mirando um lugar no horizonte, mas onde só ele podia alcançar.
Se a gente sentava e oferecia um pouco da água de coco, ele ria e voltava os olhos para o chão.
- Carece não, senhor! Muito obrigado!
O curioso é que ninguém sabia de onde ele vinha. As vezes trazia numa sacola de plástico, um pão dormido enrolado que ele comia ao meio dia, como contou-me D. Madalena quando lá passei e não vi o Sr. Moacir. Segundo a vendedora da fruta, fazia mais de uma semana que ele não visitava a barraca. Ninguém tinha notícias do amigo misterioso...
Acabei de passar lá na avenida, o toco está lá, mas no lugar do Sr. Moacir, há um vira-lata magro, adormecido como quem aproveita o calor morno do chão. Ouvi dizer que ele chega cabisbaixo, dorme ali a tarde inteira e depois sai caminhando sem rumo. Todo santo dia!



 
Cláudia Machado
Enviado por Cláudia Machado em 17/08/2018
Reeditado em 13/02/2019
Código do texto: T6421983
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cláudia Machado
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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