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Os olhos dela eram fundos e tristonhos, mas havia uma beleza que ele não sabia explicar. Sua foto na estante o fazia relembrar o tempo em que estavam juntos, vivendo no mesmo lugar.
Hoje, a exatos vinte e sete anos da separação, ainda olhava para ela e sentia a sedução que sua boca provocava. Não podia compreender como tudo foi arrefecendo... Tentou lembrar o ano que deixou de lhe levar flores na data de aniversário de casamento. Fazia anos, muitos anos...Também buscou na memória o dia que trocaram alianças, o nascimento do primeiro filho, a viagem à Paris... Era o sonho dela e ele pôde proporcionar. Aconteceu há tantos anos atrás... Foi no aniversário dela de quarenta e cinco anos. Vinha na memória tudo isso. As músicas que ela gostava de ouvir ele tocar no piano. Fascinação era a primeira que ela pedia. Ouvia de pé,  um copo de uísque, rodando as pedras de gelo com a mão. Era uma época diferente, havia um certo glamour na vida deles. O apartamento era o mesmo, mas agora o ruído dos carros na avenida denunciava a degradação do centro da cidade, outrora um luxo a conquistar.
Olhou o relógio na parede, a mesa vazia, tudo sem vida, não se parecia com um lar. As cadeiras de palha trançada, precisavam de restauração. Assim como aquele coração, que tantas alegrias viveu e agora parecia esgarçado. Na verdade ele sabia do seu erro.  Não soube se contentar com o que tinha, quis mais... Quis experimentar outros sabores do carmim, tentar uma vez mais a sorte no poker com os amigos que hoje não telefonavam mais, até mesmo porque muitos já haviam partido... Na mesma situação.
Levantou-se, olhou pela vidraça a vista que tinha para o mar, voltou-se para a mesinha de canto onde esperava a proposta que lhe fizeram e, decidiu assiná-la.
Em breve não haveria mais o espaçoso apartamento e o dinheiro seria empregado num lar para idosos solitários. Quem sabe ali, teria a sorte de fechar os olhos e não mais acordar? A velhice lhe parecia um prêmio às avessas, por tudo o que viveu e fez até ali.
Pegou o telefone, ligou para a construtora e informou que já podiam buscar o documento assinado. Procurou o piano, a foto da ex-mulher na prateleira e sentiu os olhos marejados.
Ainda era tardinha mas se deitou, rádio bem baixo. Adormeceu ouvindo as notícias do futebol. O Brasil havia se classificado.

Cláudia Machado
Cláudia Machado
Enviado por Cláudia Machado em 06/07/2018
Reeditado em 07/07/2018
Código do texto: T6383012
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Sobre a autora
Cláudia Machado
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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