Crônica cotidiana I
 
Devo admitir que pequei. Já tinha andado alguns metros e a preguiça realmente foi o motivo de eu não voltar para pegar a blusa que iria me proteger do frio naquela manhã de sol tímido e vento gelado. Segui meu caminho rumo à Universidade. Estava adiantado, na verdade, bem adiantado. Tinha tempo suficiente para um café e um pedaço de bolo naquela cafeteria do jardim central – a mais cara do campus, mas a mais charmosa e com quitutes deliciosos. Desisti também. Neste ponto não admito ser chamado de avarento. Não é este o caso. A situação era outra. Fui tomado novamente pela preguiça e antes de chegar ao café, parei e sentei num banco que convidava a tomar os raios de sol, debaixo daquela árvore frondosa. Um breve olhar ao redor dizia que eu tive sorte. Todos os demais bancos do jardim principal estavam tomados. Estudantes buscavam aquecer os corpos frios, frutos de aulas frias e desumanas. Seria um presságio? Não sei. Só sei que o banco ideal, debaixo daquela árvore, bem de frente ao sol, esperava por mim. Delícia. Respirei profundamente. Sentia o vento no rosto que debatia com o calor que também insistia em ficar. Deixei os dois travarem suas batalhas. Queria mesmo era um pouco de tranquilidade. A paisagem ajudava. A grama verde e outras árvores compunham um cenário lindo. Tirei o celular para fazer uma selfie e postar nas redes sociais. Desisti. Achava isso brega demais. Estranho ter pensado isso depois de ter feito milhares de selfies e postado todas. Estaria eu mudando de opinião? Estaria eu cometendo outro pecado? Teria eu me tornado um orgulhoso de uma hora para outra? Decidi, então, fazer uma foto do jardim à minha frente. Após o clique, revi a foto. Enquadramento perfeito. Luz na medida certa. Uma obra prima. O peito encheu de orgulho e a vaidade tomou conta da alma. Senti-me o melhor. Quando tomei consciência deste outro pecado que atacava meu ser, percebi exatamente o momento em que meu sorrisinho sarcástico de “o melhor”, desapareceu do meu rosto. Tentava em vão viver a virtude da humildade. Guardei o celular. Retirei o livro da mochila. Abri na página 287 onde um tal de Lacan ensinava seus discípulos a objeção da lei moral através da transgressão. Pensei: puxa vida, transgredi inúmeras vezes hoje em pensamento e nem fui punido pelo grande Outro – aquele que está no céu. Um barulho estranho de algo esparramando chegou aos meus ouvidos. Indecifrável por milésimos de segundos, depois, totalmente compreensível. Percebi a minha frente um excremento viscoso, branco, sem odor. Veio lá do alto. Saiu de um animalzinho de pena que também tentava se aquecer. A segunda constatação foi o estrago que essa merda fez. Havia vestígios das fezes na bela calça jeans que tinha escolhido para aquela manhã. Passei a mão na cabeça, ombros, costas e braços. Movimentei o corpo no banco para ver se havia outros focos daquela bomba. Sorte minha que não. Elevei os olhos para o céu em sinal de gratidão. Meu coração se encheu de ódio. Avistei a pomba do capeta. Neste instante recordei o quanto já tinha sido castigado. Decidi deixar o banco para outros. Quem sabe a desgraçada acertaria um coração mais pecador que o meu.
 
    Foto e Texto
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  MCMLXXVIII