Vidas Através da Lente da Máquina Fotográfica
Enquanto nos quartos predominavam as imagens de santos por insistência da avó, a sala de visita era relicário dos antepassados. Mortos e vivos ali reinavam através de seus retratos pintados ou desenhados. Quando chegava visita a avó ou mãe se faziam de museologistas: a vida do retratado era levantada e histórias e casos eram contados.
Havia também os álbuns de casamentos, batizados e demais eventos em que familiares estivessem envolvidos. A família registrava sua história em postais e retratos. Aquela família valorizava a fotografia.
Na época da bossa nova e do samba canção a moça da casa ganhara do namorado a sua “rolleiflex”. As fotografias se avolumaram e caixas passaram a ser usadas no lugar dos álbuns. Ali se guardavam também os retratos em “binóculo”, na verdade um monóculo.
A canção de Tom Jobim registrava a moda dizendo: “O que você não sabe, nem sequer pressente é que os desafinados também têm um coração. Fotografei você na minha rolleiflex. Revelou-se a sua enorme ingratidão”.
A fotografia deixou de registrar somente momentos familiares. O corriqueiro começou a ser registrado.
No final da Era Disco os amigos que trabalhavam compraram as suas “yashicas”. Generosos que eram registravam os momentos e cediam os negativos ou mesmo fotos já reveladas para os que ainda só estudavam. Era o meu caso que só podia sonhar com o dia em que eu pudesse comprar a preciosidade de capturar momentos.
Chegou o dia. Só deu para comprar uma simples Kodak. Outros custos se somavam: filmes para o negativo e cubo de flash. O filme para 24 fotos nem em pensamento. Era o de 12 fotos que seriam mesuradamente tiradas. Juntavam-se agora os cartuchos destes filmes para serem reveladas quando sobrasse algum dinheiro. Passavam os meses e até ano. Quando revelado a surpresa: muitos lugares, pessoas e poses caíram no esquecimento dos detalhes.
Quando sabia que sobraria dinheiro para o supérfluo, o luxo se fazia. Tirava-se foto de tudo: pessoas desconhecidas, animais e flores. Naquela distante noite que chegara cansado da jornada de trabalho e curso tirou um retrato de si mesmo no espelho do cômodo: era mais brilho do flash do que da autoimagem. Mas estava ali meu primeiro selfie.
Tudo passou e fomos presenteados com toda tecnologia ao alcance de todos. Há as máquinas semiprofissionais ao alcance da maioria dos bolsos.
Narcisos se refestelam à beira de todo lago possível. Quem é que não tem o seu celular para massagear seu ego se fotografando sob vários ângulos?
Todos são tão belos ao passar pelo “photoshop”.
Vaidade, argumenta o medieval. Autoestima, justifica o pós-moderno dizendo que é importante para a autoajuda a pessoa se mostrar. E o que dizer das fotos nas redes sociais? A filha de seu tempo diz:
- Quem tem mostra a vida. Quem não tem que meta a língua!
Enquanto nos quartos predominavam as imagens de santos por insistência da avó, a sala de visita era relicário dos antepassados. Mortos e vivos ali reinavam através de seus retratos pintados ou desenhados. Quando chegava visita a avó ou mãe se faziam de museologistas: a vida do retratado era levantada e histórias e casos eram contados.
Havia também os álbuns de casamentos, batizados e demais eventos em que familiares estivessem envolvidos. A família registrava sua história em postais e retratos. Aquela família valorizava a fotografia.
Na época da bossa nova e do samba canção a moça da casa ganhara do namorado a sua “rolleiflex”. As fotografias se avolumaram e caixas passaram a ser usadas no lugar dos álbuns. Ali se guardavam também os retratos em “binóculo”, na verdade um monóculo.
A canção de Tom Jobim registrava a moda dizendo: “O que você não sabe, nem sequer pressente é que os desafinados também têm um coração. Fotografei você na minha rolleiflex. Revelou-se a sua enorme ingratidão”.
A fotografia deixou de registrar somente momentos familiares. O corriqueiro começou a ser registrado.
No final da Era Disco os amigos que trabalhavam compraram as suas “yashicas”. Generosos que eram registravam os momentos e cediam os negativos ou mesmo fotos já reveladas para os que ainda só estudavam. Era o meu caso que só podia sonhar com o dia em que eu pudesse comprar a preciosidade de capturar momentos.
Chegou o dia. Só deu para comprar uma simples Kodak. Outros custos se somavam: filmes para o negativo e cubo de flash. O filme para 24 fotos nem em pensamento. Era o de 12 fotos que seriam mesuradamente tiradas. Juntavam-se agora os cartuchos destes filmes para serem reveladas quando sobrasse algum dinheiro. Passavam os meses e até ano. Quando revelado a surpresa: muitos lugares, pessoas e poses caíram no esquecimento dos detalhes.
Quando sabia que sobraria dinheiro para o supérfluo, o luxo se fazia. Tirava-se foto de tudo: pessoas desconhecidas, animais e flores. Naquela distante noite que chegara cansado da jornada de trabalho e curso tirou um retrato de si mesmo no espelho do cômodo: era mais brilho do flash do que da autoimagem. Mas estava ali meu primeiro selfie.
Tudo passou e fomos presenteados com toda tecnologia ao alcance de todos. Há as máquinas semiprofissionais ao alcance da maioria dos bolsos.
Narcisos se refestelam à beira de todo lago possível. Quem é que não tem o seu celular para massagear seu ego se fotografando sob vários ângulos?
Todos são tão belos ao passar pelo “photoshop”.
Vaidade, argumenta o medieval. Autoestima, justifica o pós-moderno dizendo que é importante para a autoajuda a pessoa se mostrar. E o que dizer das fotos nas redes sociais? A filha de seu tempo diz:
- Quem tem mostra a vida. Quem não tem que meta a língua!
Leonardo Lisbôa
Barbacena, 07/03/2018
_ POETAR_
https://www.facebook.com/PoetarPoesiaArte/
http://www.leonardolisboa.recantodasletras.com.br/
#poetarfacebook #leonardolisboarecantodasletras
ESCREVA PARA O AUTOR:
conversandocomoautor@gmail.com