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O inesquecível primeiro-beijo que não dei

Eu tive muitas oportunidades de beijar uma garota pela primeira vez antes dos dezesseis, mas desperdicei todas. E não foi por falta de paixão ou vontade, que bastava um olhar de bicicleta ou tabuada esquecido em mim, na rua ou na sala de aula, e eu já chegava em casa com o amor da minha vida descoberto. E olha que eu não tive o menor medo de tirar as rodinhas da bicicleta ou de responder quanto era sete vezes oito em voz alta na classe, mas pedir para alguém ficar comigo e finalmente beijar na boca me causava parkinson juvenil. Não sei por que tinha tanto receio de experimentar o que tantos outros meninos e meninas já haviam descoberto e que consideravam o fim da infância e o início da adolescência: só falavam sobre isso e como se fosse a coisa mais importante na vida. E era mesmo! Primeiro-beijo é tão mais gostoso que andar de bicicleta e tão menos problema que tabuada e eu realmente desperdicei muitos antes dos dezesseis.
De todos os primeiros-beijos que eu desperdicei na vida, há um que considero inesquecível. Foi na sexta-série. Ela se chamava Cíntia e àquela altura da vida já conhecíamos o equilíbrio de toda tabuada e a matemática da bicicleta sem rodinhas. Trocávamos muitos bilhetes e olhares diariamente, pois naquela época não existia celular e as paixões vinham com caligrafia e brilho pessoais. E como ela me olhava e me escrevia lindo!
Um dia, no caminho para a escola, pedi para meu pai comprar uma caixa de bombons no mercado porque tinha um aniversário. O motivo do presente era mentira. Cíntia fazia aniversário em março e o fato ocorreu num dia doze de junho – e como sabemos em que série eu estava e que eu estudava no período da tarde, poderíamos, hoje, facilmente, precisar não apenas o ano, mas o dia e a hora em que não dei esse primeiro-beijo. O fato é que, neste dia, trocamos somente um bilhete antes do recreio: “Me espera na classe quando bater o sinal, que eu tenho uma surpresa para você”; e “Ai, ai, ai, o que você está aprontando?”. Também foi só um olhar trocado depois desse bilhete, o que era infinitamente pouco perto dos outros tantos nos outros dias. E esse foi o estopim do meu desespero. Será que ela não me ama e eu entendi tudo errado? Será que eu caí de bicicleta na tabuada do oito?
Bateu o sinal e meu coração quase parou. Levou mais tempo para todos saírem da sala do que todo o dia levara para transcorrer até ali. A menina permaneceu na carteira, fingia escrever no caderno, dava sua total concentração às letras... E eu, na minha colossal insegurança, quis acreditar ainda mais que ela realmente não me amava e que agora até me ignorava. O último figurante saía da classe e eu tremia tanto quando me levantei, que pensei que meu corpo fosse despedaçar e cair pelo caminho feito os bombons sortidos que eu carregava numa caixa sem embrulho de presente enquanto ia ao seu encontro. Quando ela percebeu a minha aproximação, levantou-se e caminhou na direção da porta como quem vai embora distraidamente; como quem sai para o recreio como todos os dias; como quem não tivesse trocado bilhetes e olhares o semestre inteiro e não tivesse recebido um de cada, naquele dia, dizendo especificamente para ficar... Como se não tivesse decidido ficar até agora.
Segui seus passos em silêncio (o que dizer?) e por um momento achei que teria de comer uma caixa inteira de bombons como lanche no recreio: engolir toda aquela história, os olhares, os bilhetes, o amor da minha vida... mas no último segundo, no último passo antes da porta, ela se virou e sorriu. De tudo que Cíntia me dava, a atenção dos olhares, os bilhetes, nada era mais apaixonante do que seu sorriso de aparelho nos dentes, que parecia coligar a boca aos olhos e aos ombros de modo que sorria com todo semblante e corpo.
¬- Isso aqui é pra você. - Nem sei se foi isso mesmo o que eu disse. Estava tão nervoso com o momento, que não lembro nem se falei qualquer coisa. Só sei que entreguei a caixa e ela sorriu assim: completa e verdadeiramente. E disse:
- Nossa... como você é fofo e maravilhoso. Como eu posso retribuir?
Eu nem contava com essa oportunidade única de dar um primeiro-beijo. “Como eu posso retribuir?” Hoje penso nessa sentença e rio comigo mesmo. Qualquer garoto menos idiota teria beijado, mas todo o nervosismo que descrevi há pouco não era sobre uma possibilidade de primeiro-beijo e não aplicaria também a esse dia, a esse momento especificamente, não fosse por essa frase.
“Como posso retribuir?”
Cíntia tinha mantido, até ali, todo o equilíbrio de quem se prepara para um ato que deve ser realizado em segredo, longe dos olhos dos adultos. Foi calculista nos gestos e nas atitudes, dentro da sala de aula, até que todos nos deixassem a sós, e agora sim respondia aos meus questionamentos. Segura! Segura como a caligrafia em seus bilhetes. Segura como os seus olhares. Segura como o aparelho nos dentes de uma boca que provavelmente já tinha beijado antes e sabia como era bom. Sua resposta, que era uma pergunta, deixava a porta aberta para uma ação. Uma porta aberta para a adolescência. E eu, que nunca tinha beijado e tinha os receios multiplicados pela insegurança, apesar de ter em Cíntia o amor da minha vida da sexta-série, não a beijei.
Não sei se o primeiro beijo marca mesmo o início de uma fase, talvez não estivesse pronto para deixar de ser criança. Só sei que lhe respondi que, com aquele sorriso, ela já me dava tudo de que eu precisava. E saí. Acho que eu estava pronto era para ser poeta.

Saulo Pessato
Enviado por Saulo Pessato em 04/03/2018
Reeditado em 21/03/2018
Código do texto: T6270630
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Saulo Pessato
Campinas - São Paulo - Brasil
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Saulo Pessato