BRASIL: UMA SOCIOPATIA TERMINAL SEM CUIDADOS PALIATIVOS

O tema do meu texto eu o vou discorrer com sentimento do que vivo e do que vejo no meu dia-a- dia.

Esclareço que eu poderia começá-lo com uma nuance politicamente correta e induzir esperança no meu leitor, como nesses “memes” das redes que enaltecem a esperança simplória, desconectada da realidade a subliminarmente repudiar as sensações mais realistas.

Eu sei que, paradoxalmente, a poesia esperançosa arrefeceria os ânimos já tão arrefecidos do momento, mas aqui proseio politicamente lúcida, ao que já peço desculpas a quem se propuser a me ler até o fim.

Às vezes é preciso lucidez e acidez para enfrentar a realidade “nua e crua”.

"Aceitar dói menos", é a frase de efeito que mais ouço por aí...

Olho para o meu país como tantas vezes olho para os meus pacientes, como se assistisse a um doente terminal numa chamada de urgência, desses pacientes sofridos, caquetizados por grave doença sistêmica, generalizada, já avaliado pelos melhores especialistas DO MUNDO , com brilhantes diagnósticos sindrômicos, anatômicos, funcionais, etiológicos e histológicos, em uso dos melhores recursos de ponta , mas e infelizmente ...em fração de segundos fundamentados, sem ser necessário uma palavra, ali constato que se delineia um caso incurável.

A doença tomou conta do cenário orgânico e quebrou a linha energética da saúde num ponto irrecuperável , sem volta.

E então, ali, naquele momento de mistério da passagem, pouco nos importa saber, DENTRE TANTAS, qual doença primária fez o estrago principal porque já se perdeu-se o “ time” da cura.

Assim, sem intenções heróicas, ali só nos resta lançar mãos, AO MENOS, da MEDICINA PALIATIVA, a que acolhe e alivia a todos os desesperos; só nos cabe amenizar as dores, às vezes com fortes opiáceos, dar conforto, ligar o oxigênio, desobstruir e manter todos os fluxos, monitorar intercorrências e não atrapalhar o curso natural da vida, a por fim esclarecer à família que todo doente terminal merece dignidade de morte. ..assim como decerto aquele ser que de nós se despede por aqui lutou por dignidade de vida.

Em último ato, em prol das forças esvaídas, nos cabe baixar-lhe as pálbebras com nossas mãos também cansadas de tanto sofrimento crônico, como se tal fosse um último ato de alivio conjunto e de oração em respeito ecumênico às todas esperanças de vida...que partem sem saber para onde, sempre acreditando partir para melhor.

Em analogia com o nosso social de hoje, desabafo que olho para o meu país, o examino com cuidado, o ausculto nas entranhas da vida interior e exterior e percebo que diferimos dum doente terminal QUE DESCREVI apenas no quesito "dignidade de acolhimento no leito de morte", a que poderia ocorrer no exercício de, ao menos, uma SOCIOLOGIA PALIATIVA.

O mais triste: se nos falta dignidade de vida como acreditar que nos houvesse paliação para a merecida dignidade de morte em vida?

Somos uma sociopatia terminal como se destinada fosse ao prognóstico dum natimorto.

Olho para o meu país e ouço sua voz agonizante do doente ao pé do nosso ouvido:

” não me deixe morrer, não nos deixe morrer...façam alguma coisa...”.

Um pedido que ouço , respeito , mas que está além das possibilidades visíveis do entorno, realidade que me coloca em intimo contato com a dolorida e dolorosa impotência cidadã do momento.

Prognostico a sociopatia incurável com a mesma alma que move o conteúdo do que escrevo.

Arrisco meu diagnóstico social lá de cima, na chamada do meu título extraído da dor de vida cotidiana.

Reporto-me a Deus e imploro pelo milagre e pela graça dum “erro diagnóstico”-desses tantos "erros médicos" que hoje pontuam as mídias sensacionalistas que vivem da dor humana!- enquanto isso, uma nova noticia bombardeia um resto de esperança moribunda, a que ainda me move frente aos repugnantes sentidos duma lucidez que dói e mata...

E sem cuidados paliativos.