NA FORTALEZA DO VANTUILO
 
     Recebi um convite do meu amigo e poeta Vantuílo Gonçalves para passar uns dias em Fortaleza onde ficaria hospedado no seu apartamento, “uma cobertura num dos novos prédios da Av. Beira Mar” A principio eu pensei em recusar, mas como trabalho para o governo e é fim de ano, resolvi viajar. Fui até a agencia de turismo “Nordeste Este” e comprei uma passagem para pagar em suaves prestações no total de cento e oito, corrigidas pelo valor do euro e num dia ensolarado às oito horas da manhã estava no aeroporto de Confins para fazer chequi-in e aguardar o embarque que seria às duas horas da tarde. Se eu fui muito cedo? Que isto, mineiro perde o almoço mas não perde o trem de jeito nenhum uai.

     Estava ali trajado na minha elegante forma de viajar, calça índigo blues, botas meio cano barquezan, óculos escuros, camisa polo Bianchini, meu inseparável chapéu preto e minha viola caipira às costas. Sem muito que fazer, sentei-me numa calçada e comecei a tocar minha viola, logo chegaram dois policiais e me pediu documentos, saquei a aposenteicho card. e enfiei na cara deles. Olharam e disseram, é apenas um velho inofensivo, mas não pode ficar aqui perturbando o silencio dos presentes. Enfie esta viola no saco e fique quieto ou vai preso. Eu disse: sim senhor (pó dexá). Duas horas embarquei, parece que trouxe azar para o voo, caiu uma tempestade de carregar avião na correnteza. Conseguimos alçar voo e o piloto tratou de subir rápido acima das nuvens onde nos livramos dos raios e trovões. Foi um voo tranquilo até Fortaleza e ao desembarcar no aeroportto xodó da fêmeas... é assim não, é: "Pinto Martins" meu amigo Van... “Forma carinhosa de tratar o poeta que estava à minha espera”.

     Desembaracei as malas e saí para a área livre onde nos apresentamos e após os cumprimentos de praxe, embarcamos na sua limusine Mercedes Benz blindada e fomos para a orla onde o veículo desceu a rampa de acesso à garagem de um enorme edifício na Av. Beira Mar, o elevador com vista panorâmica nos levou ao último andar e ao entrar no luxuoso apartamento fomos saudados pelos funcionários, antigamente chamados de criados. Agradeci à recepção e após ser acompanhado até à suíte de sessenta metros quadrado com hidro massagem e sauna Belkirit com aquecimento a laser e vista para o mar com painel de visão em vidro Plexos-shood e cortina de seda chinesa. Eu deitei-me sobre lençóis macios forrando um colchão precibull que se ajusta ao meu corpo dando um descanso realmente agradável.

     Permaneci em silencio e relaxei por duas horas, levantei-me coloquei uma sunga e saí para área da piscina onde o poeta já estava acompanhado de duas lindas mulheres morenas de corpo escultural e vestidas com biquíni do tipo cordão cheiroso tomando daiquiri, sentei-me numa flex-draid e uma garçonete me passou um abacaxi com o canudo enfeitado de cristais de açúcar e passei a fazer parte do ambiente entrosando-me na agradável conversa que girava em torno da forma mais prazerosa de se fazer sexo numa cabine de iate. O agradável encontro durou até às vinte horas quando terminou o lindo por do sol e a promessa de que as garotas almoçariam conosco e combinaríamos um passeio no iate do poeta até alto mar onde pescaríamos e tentaríamos escrever um poema a dois exaltando as belezas do mar cearense.

     As meninas se foram e Vatuílo me convidou para descer e passar algum tempo no chope drinque onde ele tinha me reservado uma surpresa, Descemos e andamos vinte metros até o amplo bar acompanhado por meia dúzia de seguranças tipo guarda roupas que ficaram de plantão no passeio, porém sem entrar no recinto. Entramos e realmente foi grande a surpresa de ver ali muitos amigos poetas do recanto e dois se levantaram presto para entre demonstração de grande alegria festejar este encontro, era Fábio Brandão e Jacó Filho... Emocionei-me agora recordando.

     Fomos convidados a participar da grande mesa redonda com vários outros convidados, destacando-se à poetisa Rosilene Lima, Chico Mesquita simpático e receptivo nos saudou com uma louvação ao estilo “clássico cearenses” claro recebeu os aplausos da galera presente. A poetisa Maria de Aranilda me abraçou como se me conhecesse há muitos anos, eu correspondi, pois, tinha também esta sensação. Zeni Silveira e o noivo Dosan tinham vindo de Sergipe para assistir ao evento que só fiquei sabendo depois e isto explicou ali a presença de tantos poetas famosos, O lançamento dos últimos livros dos poetas Jacó Filho e do Fábio Brandão pela mesma editora em noite de Gala no teatro Fortal, a noite de autógrafos contou com os mais renomados poetas de vários estados nordestinos e estavam hospedados num famoso hotel... O nome? Não, propaganda aqui na minha crônica de jeito nenhum uai.

     De repente entra no recinto uma porção de homens barulhentos, cantando e brincando com todo mundo e parece que conhecidos de todos, Vantuílo foi abraçado por um deles que dizia contrito e até emocionado: Este é meu poeta, meu amigo pescador de palavras bonitas, comedor das mais lindas garotas de Fortaleza e foi desfilando algumas das muitas qualidades do poeta até que ele pediu um tempo para o homem e fez uma apresentação formal do amigo: Este é o bom vi van de Fortaleza, João Siri, vive para se divertir e quem quiser pescar é só dizer que ele sabe onde e como pegar os melhores peixes. O João se inflou de orgulho e respondeu, amanhã vamos pescar na praia redonda, quem quiser ir vai se divertir, vamos fazer roda de rede vai mestre? Vantuílo disse que se eu quisesse iríamos, olhei para o Jacó e Fábio, responderam sem eu perguntar estamos dentro, Zeni e Dosan também confirmaram presença e somente alguns que tinham eventos marcados para o dia seguinte não toparam, mas com cara de quem também queriam. O champanhe francês Dom. Perignom safra 55 corria solto e daí a pouco Fábio já estava chamando Jesus de Genésio e Jacó sempre mais ponderado disse: se vamos pescar o melhor é dormir mais cedo. Concordei, pois minha cabeça estava girando e eu estava doido para que o mundo chegasse ao ponto final para eu descer.

     Combinamos o local de encontro no outro dia às nove horas e nos despedimos. Vantuílo não deixou ninguém pagar a conta e só acenou para o Maitre que entendeu o recado e colocou tudo no prego com um sorriso grande e feliz pela presença de tantos famosos ali no seu bar. Quando eu digo: “famosos”, não me incluo, aliás, dos que lá estavam eu era o menos conhecido e o mais assanhado, falava mais do que pobre na chuva tentando atrair um pouco de atenção que só os amigos mais chegados se dignavam a dar. Subimos e me deitei de roupa e tudo dormindo em seguida. Quando acordei na manhã seguinte Van. Já tinha tomado banho e estava me esperando para um café reforçado numa mesa montada sob a cobertura deslizante do terraço. Tomei uma ducha rápida, tomamos café e vesti minhas roupas de aventuras, ou seja: as mesmas da viagem.

     Fomos para o local de encontro desta vez no seu porche 318, mas atrás e na frente rodavam dois outros carros pretos transportando os guarda costas de terno e óculos escuros portando submetralhadoras e prontos para a ação. Chegamos ao local sem problemas e os dois veículos pretos pararam a uma distância de cem jardas e se espalharam em torno da área onde estávamos. João Siri já estava bêbado e perguntou ao Van: cadê a pinga luluia que você disse que ia trazer, ele riu e fez sinal ao chefe dos seguranças que trouxe dois litros de cachaça explicando que era fabricada em uma das suas oito fazendas espalhadas pelo país. Claro, eu e Fábio quisemos experimentar afinal mineiro não nega a raça antes de virar demos à costumeira dose do santo. Gostamos e tomamos mais duas cuias estalando a língua em sinal de aprovação e nãos nos separamos mais do litro.

     Zeni Dosan Jacó, Aranilda e a turma dos mais refinados, tomavam vinho do porto, também trazidos pelo nosso anfitrião que disse: podem beber à vontade, um daqueles carros está com a porta malas cheio de cerveja e outras bebidas inclusive uísque Royal Salut, quem quiser é só fazer sinal praquele grandão que usa a metranca pesada. Olhei para o Fábio que entendendo meu ar de preocupação se levantou e pediu para o tal mais um litro da malvada luluia, daí a pouco chega uma vã do: Marina Park Hotel... Pronto fiz propaganda gratuita, agora já foi, deixa. Trazendo comida e servida imediatamente por garçons vestidos de uniformes brancos e uma faixa preta como cinta, e o brasão do hotel estampado numa das laterais do quepe também branco.

     Almoçamos, bebemos e quase travamos a língua, mas desta vez com mais moderação ainda conseguíamos caminhar sem ter de abraçar o companheiro do lado, Já era mais de quatro horas quando João Siri convocou a turma para a roda de rede. Dos poetas quem entrou na roda, foram o Van. Fábio, Dosan, Chico Mesquita e eu, as poetisas e Jacó... Sei não, quando a gente vê um poeta calmo assim como Jacó, tem de desconfiar, ele preferiu ficar fazendo companhia para as belezura presentes, mesmo porque as duas ninfetas que estiveram no AP do Van à noite, estavam presentes... E que pitéu. A um sinal do João Siri, entramos na água calma com ondas que eram marolas suaves ao contato com a pele. Caminhamos pela praia rasa, que beleza. Afastamo-nos por mais de meio quilômetro e a água não passava dos joelhos.

     Quando não conseguíamos mais distinguir as pessoas na praia, ele mandou-nos formar a primeira roda de rede. Cada um de nós segurou sua parte da rede com duas mãos e formando uma longa fila indiana já ansiosos por ver o resultado da pesca. Quando ele mandou fechar a roda, arrastamos a rede com chumbos pesados na borda baixa até formar a roda. Dentro da roda alguns homens da turma do João siri faziam a maior bagunça espadanando água para todo lado fazendo os peixes tentarem se safar e ficarem presos à rede. Foi uma fartura de tainhas, xá réus, namorados e até linguado apareceu, os homens tiraram os peixes e caminhamos para mais além mar parando noutro ponto e repetindo o feito, quatro homens já tinham ido a praia levar peixes e retornaram para a farra gostosa e inesquecível... Inesquecível, pois é! Distraídos na ultima roda de rede, nem percebemos que estava escurecendo e foi aí que o filho chorou e a mãe não viu.

     A noite desceu de uma vez e preocupados olhávamos para os lados e cadê a praia, só escuridão, perguntei ao João Siri: e agora João, como vamos achar o caminho, ele de tão bêbado que estava demorou dois minutos para responder e eu sei lá, acho que é praquele lado, Vantuílo falou e notei que sua voz estava num tom fora do habitual e mais autoritária, ô João deixe de brincadeira, vamos voltar à praia, e ele: ó meu poeta, se preocupe não, é só ficar todo mundo de mãos dadas e me seguir, saímos ensaiando alguns passos e a água foi ficando mais funda, ele gritou: voltem, deve ser para o outro lado, e a mesma coisa aconteceu na outra direção, e todas as direções que íamos acontecia o mesmo, começou a soprar o noroeste e esfriar a parte do corpo que estava fora da água, o jeito era afundar o corpo para evitar o vento frio, mas agora só nossas cabeças estavam de fora, a maré subira ou tínhamos entrado muito em direção ao alto mar.

     Alguns começaram a resmungar contra o João e ele confessou que sabia pescar, mas em barco e era a primeira vez que fizera este tipo de pesca. Van. Ralhou com ele e a turma de pescadores ou os mais acostumados com pesca já falavam em linchar o João Siri, outros mais medrosos começaram a choramingar e o grande poeta Fábio Brandão, sereno levantou a voz e disse: pessoal, não percamos as estribeiras, sempre existe um caminho para quem tem fé. Eu resolvi ajudar ao poeta e disse elevando a voz: Se preocupem não cambada, o mundo vai acabar mesmo no dia vinte e um, morrer agora ou daqui a três dias dá no mesmo. Dosan gritou: cale a boca gafanhoto... Eu disse: “Dosan, este bordão é de Jacó”. E Fábio já nervoso, cale a boca trovador, notei que ele estava com os nervos à flor da pele e resolvi colaborar ficando quieto.

     Após alguns segundos de silêncio ele voltou a falar: Nós somos homens e acima de nós existe uma força superior a quem poderemos pedir ajuda, temos muitos meios de chegar à esta ajuda, uma delas é orando, confiando e demonstrando nossa fé. Vamos orar, eu quando criança fui coroinha lá em Minas Gerais e aprendi muita louvação, vamos rezar meu irmão: ó todos os santos olhai para este lado... A turma respondia: por favor, olhem depressa senão morremos afogados. Fábio: Por favor, nos ajude e abaixe esta maré, nós: ande rápido que o tubarão mordeu no meu pé, aí o João Siri cismou de responder a ladainha sozinho: dá luluia, dá luluia, ó God ai, ai, ai, Vantuílo respondeu ríspido, não me enfeza a luluia acabou e pare de interromper a reza.

     Nestas alturas já tinha gente chorando que nem bezerro desmamado e fazendo promessa pra padim siçu do Juazeiro aí Fábio recomeçou: Olhai para este povo que nem sabe o que diz e nós: Mais depressa, pois, a água esta entrando no meu nariz. E João Siri: dá luluia dá luluia e Fábio bravo, cale a boca gafanhoto... Eu? Uai poeta nem falei nada. E ele: Aí meu santo padroeiro, salve a gente deste desespero e nós: Por favor, então faça, pois, já estamos sujando as calças. E João dá luluia dá luluia e Fábio vou acabar a reza e não peço mais por ninguém... Dá luluia pra mim também, amem. Neste momento alguém olha um ponto na escuridão e grita: Uma luz, todos olhamos e concordamos que deveria ser uma fogueira na praia e seguimos cheio de receio na direção da luz, alguns metros depois a água foi ficando rasa e logo estava só nos joelhos, e os valentes começaram a se manifestar, Eu estava só fazendo medo nesta corja, na hora que eu quisesse eu iria saber voltar, era só seguir a correnteza e João: dá luluia dá luluia, Van. deu um coque na cabeça dele e ele disse: ai poeta, machucou, dá só mais uma luluinha..

     Quando estávamos a cem metros da praia, quatro helicópteros e mais de cem botes infláveis iluminaram tudo, era a segurança do poeta Vantuílo que preocupados com a demora do patrão acionaram a Marinha e quando olhamos de novo para o mar, avistamos mais de vinte navios clareando tudo, e a mídia em peso na beirada da praia querendo noticias e até o governador fez um discurso ao ver salvo o seu poeta maior. Aí todo mundo apareceu na televisão e eu com a minha violinha já nas costas, meu chapéu preto me aproximei e um coronel me afastou, sai daqui vagabundo, estes bebuns sempre querendo aparecer, sargento prenda este meliante,

     Nem vi o resto das entrevistas, fui pro xadrez, o pior é que lá tinha outro bêbado para me fazer companhia e cismou que eu ia ser mulher dele, aí esqueci que sou de paz e meti-lhe a mão na venta, e foi briga a noite inteira. De manhã chegou o poeta Vantuílo e mandou-me soltar e ainda ouvi uma reprimenda do carcereiro por eu estar incomodando o poeta com as minhas mazelas.

     Voltamos para o AP do Van. e aí sim enchi a cara de luluia e fiquei bêbado até a hora da minha partida que culminou com o regresso no mesmo avião dos meus amigos e parceiros, irmãos camaradas que como eu apesar da pescaria mal fadada ficamos agradecidos pela recepção na linda cidade de Fortaleza pelo grande poeta Vantuílo Gonçalves que tenho certeza, mesmo se não tiver esta pompa toda descrita aqui, nos receberia de coração aberta em sua cidade. Um abraço galera fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Um abraço poeta Vantuílo Gonçalves. E desculpe as brincadeiras.


Trovador.
 
Trovador das Alterosas
Enviado por Trovador das Alterosas em 26/09/2017
Código do texto: T6125783
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