Assim ou ...nem tanto.110

Josefa

Dançava todas as músicas que só ela ouvia. Naquele tempo sem auscultadores nem melodia armazenada quem assim dançasse ou risse sem razão, ficava livre de obrigações. Quem está tão desobrigado prescinde de roupa ou nem precisa de a cuidar. Josefa mantinha-se de seios ao léu e renovava as pulseiras para conseguir um som pessoal para as canções que muito fortemente escutava em exclusivo. Era louca, era uma demente mansinha como uma tarde quente. Era uma louca que fugia, corria, visitava e ria sem que ninguém ousasse travar-lhe o passo. Toda a gente a temia e toda a gente a protegia. Projetaram a cidade para ser grande e ela ficara pequena com as casas muito separadas, os lugares distantes, as ruas que procuravam por nós no intervalo de ver passar Josefa, de dançar com ela, que vivia os sons e as distâncias. Um dia de sol a pino a louca andou todas as ruas até ao rio e passou por alas de mulheres lavadeiras, de crianças que gritavam desesperadas só de a ver. Ela avançava e as mulheres dobravam-se submissas pelo medo irracional e Josefa ria, ria. Viram-na no banho só de tanga, nua depois, a gargalhar feliz. A seguir já não estava nem o riso se escutava. Chegou por ela o pano estampado de triângulos, desenhos delidos de suor e idade. Três dias depois voltou faminta, silenciosa, nua e cansada. Pousou o corpo no caminho e dormiu no pó da estrada.

Edgardo Xavier
Enviado por Edgardo Xavier em 19/09/2017
Código do texto: T6119011
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