TEMPO

Nessa época, eu só ouvia falar dele, destro, poderoso, implacável, justo, imperdoável, inexorável, e tantos outros adjetivos que, em um primeiro momento, meteria medo em qualquer um. Mas eu, na plenitude da infância e juventude, mal dava ouvidos. Aquilo parecia tão distante, tão ilusório, tão conto de fadas, que, eu não poderia crer que algo assim existisse ou viesse a existir. Era mais uma crendice ou mito, ou fantasia criada por mentes férteis.

Em pleno vigor da juventude, o mundo era meu, tudo era prazeres e loucuras, nada poderia interferir naquela magia, naquele momento forte, grandioso, irradiante, inexplicável e ao mesmo tempo, tenebroso; porque, sim, em apenas um ou dois neurônios no fundo do cérebro, havia uma centelha, uma fagulha, uma gota, uma pequena sensação de que, aquele meu mundo é que era o irreal, o conto de fadas, o mito. Era muita felicidade para ser real, sentia aquele medo inexplicável de que algo tão bom, não poderia perdurar muito. Aqueles momentos lindos e mágicos, estranhamente exalando sensações de força, de plenitude, de eternidade, e não aquele monstro poderoso que viviam exaltando e que estava à espreita de todos, e me atormentando para tirar aquela magia linda em que eu vivia. Que tolo eu fui! Ou será que fui sábio, enganando a fera e vivendo meu mundo, mesmo suspeitando de que não era certo ignorá-la, e vivendo o momento?

Hoje reflito que aquilo tudo passou tão rápido. Não sei bem ao certo, quando o senti, ao longe, a me espreitar, a baforar seu hálito frio e terrível próximo ao meu mundo lindo, exuberante, imutável e eterno. Aos poucos, fui sentindo e percebendo que talvez aquela fera realmente existia. Tentei fugir, ficar no meu mundo, protegido contra suas intenções, mas meu mundo já não era o mesmo. As coisas estavam mudando, as personagens estavam ficando diferentes, outras sumiam, outras estranhas apareciam, coisas, objetos, cenários estranhos estavam maculando meu mundo, e eu não tinha mais forças para impedir. Aquela magia foi se esmaecendo, aquelas cores foram ficando cinzas. Meus sons lindos e tão penetrantes em minha alma, foram sendo esquecidos, e outros sons estranhos, sem sabor, foram aparecendo.

Aos poucos, e sem mesmo o perceber, fui sendo expulso do meu mundo, meu mundo próprio, e ficando no real mundo de onde ninguém escapa.

Estavam certos, tive que admitir, quando falavam com tanto respeito, medo e reverência sobre aquele espectro poderoso, que não perdoava ninguém, e que levaria a todos em seu devido momento. E esse meu momento foi chegando, sorrateiro, imperceptível, implacável quando o conheci. Não o vi, pois não o queria ver, essa era a verdade. Mas ele sempre existiu, e se apresentou a mim em seu devido momento, atrasado por mim mesmo e por isso, tão doloroso o sentir hoje, assim tão próximo, tão real.

Tempo, você existiu, existe e sempre vai existir. Porque não o reconheci antes? Agora você vem com tanta força como um vendaval e destrói todo meu mundo, e ainda - como que caçoando de mim - me faz continuar vendo-o e sentindo-o, vivendo-o, através das lembranças, nas entranhas do meu ser, tatuado em algum lugar do meu cérebro, que não tem droga alguma que o faça esquecer. Ah, e como dói, o sentir e não poder vivê-lo. Sei que não vai me dar mais tempo, implacável como és; mas uma coisa você não vai me levar. Voltarei para o meu mundo, e lá ficarei eternamente, pois aonde eu vou, você não existirá.