Assim ou...nem tanto 26

Em Smallville

Aprendi cedo que a virtude também gosta de sair à noite. Certo dia, que agora nem vem ao caso, senti-a estranha, mais cuidada, talvez inquieta por ser tempo de sair e por haver ainda tantos olhos acordados. Fingi sono precoce e pude espiá-la com sossego. Assim que a vi saltar a janela para o lado mais escuso de uma noite fechada, logo percebi que um vilão a esperava para a festa, que festa haveria, a justificar uma saia tão rodada, tanto cheiro a alfazema, tão tombada sobre o rosto a touca que velava o asseio. A virtude, já Horácio referia, está no meio de vícios opostos. Gasta-se a fugir deles a maior parte do tempo mas, naturalmente, tem pausas, descansos sabáticos, férias e muitos congressos. Imagino que a virtude que foi fosse igualzinha à que veio mas, pelo sim pelo não, seria de conferir. E voltei a espiar. Em tudo semelhante. Agora, com renovado recato, já sem pintura, desfeitos os caracóis, só restava a pisadura da dança, tanta falta de dormir, tanto de mau caminho andado. Chagas não vi e a virtude não mentiu dizendo-se indisposta a quem a sentiu menos santa. Há virtudes que nos regressam parecidas depois do banho tomado, do caso esquecido, da consciência comprada. E de tudo isto vi jeito na virtude desta história. Fiz que sim com a cabeça, fiz trair os olhos quando aceitei por verdade aquela mentira. “ Às vezes, até os heróis precisam ser salvos”, diz-se em Smallville.

Edgardo Xavier
Enviado por Edgardo Xavier em 07/01/2016
Reeditado em 07/01/2016
Código do texto: T5503654
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