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                                    INSTANTES...
 
    Vim a pé para o trabalho depois do almoço porque chovia levemente. Adoro essa leveza dos pingos escorrendo pelo guarda-chuva, pelo asfalto, pelos telhados, pelas paredes brancas, pelas folhagens... Às vezes até pelos cabelos e pelo rosto.
    Então encostei minha bicicleta na varanda e também não quis vir de carro. Eu precisava fazer isso para sentir na pele esse tempinho ameno e também porque faz tanto tempo que não olho em volta de mim. Muito tempo mesmo... Não posso perder o costume de sentir a poesia à minha volta. E para isso é preciso caminhar e caminhando se tem mais tempo disponível para olhar tudo: as coisas e as pessoas. E hoje o tempo está propício a isso.  Mas não farei versos hoje, e nem quero. Quero apenas olhar e sentir que a poesia existe em tudo e que às vezes não é preciso transformá-la em palavras, condensá-la em métricas e rimas...
    Então vim caminhando e a primeira coisa que vi ao descer a rua, foi o pé de Sibipiruna da praça do Poliesportivo. Vi que ele estava florido, uma dessas surpresas de final de inverno. Eu vi porque a calçada por onde passei estava cheia de flores amarelas já meio mortas e encharcadas da chuva. Olhei para o alto e vi então que ela estava florida ainda e eu nem tinha notado antes. Houve um tempo que eu olhava para ela todos os dias e se não me engano foi quando me envolvi a escrever Haicais. Estava escrevendo os de inverno e ela era algo fora do comum numa paisagem ainda ressequida de inverno. As árvores da praça estavam desnudas, mas o amarelo da Sibipiruna era um contraste perfeito. Escrevi um haicai para ela. Acho que isso foi em 2013. Sim, foi.
    Mas o tempo passou e depois do haicai acho que deixei de olhar para ela. Tem coisas que é preciso só olhar para não se correr o risco de destruir a admiração. Mas poetas também se esquecem das coisas. Ou melhor, não esquecem, mas guardam as coisas em seus devidos escaninhos e retiram outros de outros escaninhos. É um ciclo profundo essa vida de poeta. Como as estações... Como os fenômenos da natureza... Eu, por exemplo, já passei o outono inteiro falando dele, das folhas amarelas e secas. Das árvores desnudas e do vento que levava coisas além de derrubar as folhas. Mas quando a ultima folha caiu eu vesti o casaco do inverno, levantei a gola sanfonada do suéter e como se estivesse em pleno inverno europeu deixei a neve penetrar minha alma. Imagine, eu nem conheço neve. Mas na minha alma tinha neve porque era inverno e porque inverno tem que ter neve, mesmo na imaginação. Então além de vestir o casaco e luvas eu acendi lareiras e bebi chocolate quente em cada verso e deixei o frio penetrar minha alma. Porque o frio também lava a alma. Mas isso foi no inverno passado.
    Depois veio a primavera e me vesti de flores, principalmente margaridas. Gosto delas. Muito. Tem muita história para mim desde criança. O símbolo da primavera para mim então são as margaridas amarelas. Por isso fiz muitas poesias que falassem delas e isso até se tornou maçante. Eu abria a janela do passado e via campos de margaridas...  Mas houve momentos em que eu andava pelas ruas e ficava procurando por jardins, olhando as poucas flores: rosas, hortênsias, azaleias... A maioria das casas tem muros altos e preferem o concreto ao gramado e mesmo um pequeno pé de rosas. Na cidade não tem margaridas amarelas. Nunca vi. Por isso eu sempre ia para lá, para meu tempo no campo através de meus versos. Na cidade a primavera não existe de fato senão no calendário. Ela existe é na imaginação da gente e só é poética na imaginação da gente. Dos poetas... Mas sobre as margaridas, quando chegou o verão, eu deixei seus bulbos descansarem para falar do calor dessa estação... Acho que falei das paixões de verão e descobri poesia em relâmpagos e trovões. Como podem ver poesia tem ciclos e o poeta sabe.
    Mas onde eu estava mesmo? Ah! Passando bem debaixo do pé de Sibipiruna da praça. Estava dizendo que hoje eu a revi ali e meu coração se alegrou porque pude ver a tempo os resquícios de suas flores. Claro, não estou inspirada hoje para escrever haicais. Nem quero fazer poesia qualquer que seja. Então caminhei pela rua. Passei pela segunda praça onde tem uma pequena quadra de esportes.  Não tinha ninguém lá. Nenhuma criança brincava porque ela estava molhada pela chuva. Lembro-me que sempre tem crianças lá brincando, mas nem olho para elas.  Ou olho, mas não vejo de fato. Apenas sei porque escuto seus gritinhos e sei que estão lá. Hoje senti falta delas, de seus gritinhos, do barulho da bola batendo no chão ou no alambrado atrás das traves. A ausência das crianças tinha poesia hoje. Tinha sim... A sua ausência... É que essa ausência me lembrou minha infância de tão longe. Essa dor de saber que a perdemos em algum lugar e nunca mais a encontraremos... Mas apesar disso consegui sorrir um pouco porque me lembrei de mim: cabelos curtos tipo Chanel e de franjas, vestido azul claro de bolinhas brancas e chinelinhos havaiana...  e de minha boneca Rosângela... Não tenho sorrido muito ultimamente. Mas isso não vem ao caso agora.
    Fui caminhando até virar a esquina. Depois virei outra esquina e mudei meu itinerário. Sempre que venho a pé para o trabalho mudo o itinerário somente para passar perto do pequeno bosque de eucaliptos.  São ocasiões raras e então aproveito. Gosto de passar perto dos eucaliptos e ficar olhando suas folhas farfalharem ao vento e hoje estava um ventinho frio. Os eucaliptos estavam verdes apenas com a chuva dos dois últimos dias e estavam lindos e altivos. A primeira vez que notei os eucaliptos foi em Janeiro de 2012. Estava muito triste quando passei ali perto deles e parei um pouco e fiquei olhando. Nesse dia meu esposo estava numa UTI numa cidade próxima e eu muito só. Então parei um momento e fiquei olhando. Os galhos balançando eram algo muito forte como se Deus estivesse lá e Deus fosse o Vento. E então eu tive uma esperança. Aliás, eu sempre tenho mesmo sabendo que nos últimos tempos ela é pequena em razão das circunstâncias. Mas isso também não vem ao caso agora. Mas sei que foi bom revê-los hoje e sentir a presença de Deus naquele farfalhar de folhas miúdas nos longos galhos elegantes. Eu acho que Deus está no vento sim e é por isso que sempre chego à varanda de tardezinha e fecho os olhos pra sentir o vento e só vou pra dentro quando o vento passa. E então sei que Deus esteve um momento comigo. Um dia fiz um poema falando disso depois que li num salmo que Deus anda nas asas dos ventos e que os ventos são teus mensageiros. Foi muito profunda essa descoberta.
    Mas depois dos eucaliptos eu virei outra esquina e caminhei um tempo até ver um homem sentado no meio-fio úmido da chuva. Acho que foi o único ser humano que encontrei nesse itinerário de hoje. O homem aguardava o ferro velho abrir e ao seu lado tinha um carrinho de mão cheio de quinquilharias. Imaginei que ia vendê-las ali. Era uma cena tocante e poética. Pelo menos aos meus olhos. Porque não poderia ser poético um homem buscando uma perspectiva para o irrisório cotidiano de sua vida? Não é a cena superficial que é poética, ela é até triste e diria que até patética. Poético é o conteúdo humano da cena. Velhas quinquilharias certamente seriam a certeza do arroz e feijão à mesa. A certeza de matar a fome. E a fome é poética, embora triste. Estranho isso né? Mas não sei versar essas coisas em palavras, acho muito forte. Eu queria, mas não consigo. Não sei versar Deus nem a miséria humana. Prefiro a poesia calada do Deus no Vento e acho que finjo não ouvir as rimas da fome gritando nos espectros humanos... Tenho um projeto de falar com Deus em Sonetos, mas vou adiando, adiando... Não é fácil falar de Deus... Quanto à miserabilidade humana sou covarde. Não atreveria a lhe escrever versos porque a miséria é uma afronta. Foi por causa dessa covardia que desviei os olhos do homem com suas quinquilharias. Doía não a sua miserabilidade, mas a minha. Porque ser covarde é um tipo de miséria e é isso que dói mais. O não fazer nada em favor do outro... O fechar os olhos... Foi por isso que me afastei rapidamente.
    Mas felizmente para que minha caminhada não terminasse com essa imagem sórdida e triste eu ouvi o canto de um pardal bem perto de mim. Ele estava lá na quaresmeira sem flor perto do meio fio.  Parei. Adoro pardais e seu canto. O primeiro Rondel que fiz foi para um pardal. Não era um pardal qualquer. Mas um pardal de meu quintal e que pousou solitário por alguns minutos no muro perto do pé de graviola. Mas foi o tempo suficiente para eu transformá-lo em poesia e eternizá-lo. Agora aquele ali no pé de quaresmeira, escondido entre suas folhas era também um ser poético. Todos os pardais são desde quando fazem suas algazarras de manhã ou quando vem bicar farelo de pão na minha varanda ou quando ficam balançando no pé de romã e até quando ficam assim voando pelas árvores da rua. Aquele ali parecia me dizer, como disse um dia Cecília Meireles: “eu canto porque o instante existe...” Seu canto não era triste. Não era. Embora parecesse... Triste era eu naquele momento. Triste por tantas coisas. Mas não devia ser e um dos motivos era por estar ouvindo aquele canto tão lindo. Acho que ele me deu uma alegria e me fez esquecer um pouco minha covardia. Por isso voltei a caminhar mais rápido e foi então que completei o verso de Cecília Meireles: “não sou alegre, nem sou triste, sou poeta”. De fato... Mas não foi essa certeza que me tocou, mas aquela de que o instante existe e que é preciso ser sentido como fiz hoje...
 


Quarta-feira, 09 de setembro de 2015. 
Sonia de Fátima Machado Silva
Enviado por Sonia de Fátima Machado Silva em 09/09/2015
Reeditado em 09/09/2015
Código do texto: T5376253
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Sonia de Fátima Machado Silva
Coromandel - Minas Gerais - Brasil, 56 anos
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