A MOÇA QUE RECLAMAVA DEMAIS.

Aclibes Burgarelli

Pensamento. Cristo, ao ser acusado, julgado e condenado, embora Pilatos tivera afirmado sua inocência, em momento algum reclamou da manifesta injustiça contra ele feita. Aqueles que do Mestre reclamam assim prosseguirão, porque cada reclamação é um passo para se distanciar da paz e da verdade.

A moça era conhecida no seu ambiente de trabalho pelo apelido de Aurita; seu nome de batismo fora Áurea. Servia café nas mesas da lanchonete “Flor da Manhã”, dispostas cuidadosamente no ornamentado jardim do local de alimentação. Essa atividade lhe proporcionava razoável renda mensal e algum dinheiro na poupança.

Aurita era jovem, bela e, sem lançar mão de produtos de toucador, tinha a tez clara e sobrancelhas bem definidas em maravilhoso arco uniforme a cobrir os olhos azulados harmonizados com o nariz proporcional aos traços do rosto.

A bela moça tinha pendão para a leitura e se relacionava bem com estudos, em especial espiritualistas; essa prática lhe trouxe excelentes resultados e confiança na vida futura, sem preocupação com os percalços naturais da vida humana.

A pessoa, como Aurita, que se interessa pela busca de conhecimento, sem visar vantagens materiais, e o faz de forma criteriosa e responsável, sem dúvida tornar-se-á um ícone no grupo em que conviver e será admirada por todos.

Aurita, ao se dedicar espontaneamente ao aprimoramento pessoal conseguiu captar uma verdade que dizia respeito a ela própria, qual seja a verdade de que a lei natural do progresso humano é inexorável. Quem não a respeitar ficará estagnado sem horizonte do futuro.

A moça conseguiu cultivar a consciência da responsabilidade por tudo o que fazia e, raras vezes, descuidava-se a respeito e quando o descuido acontecia ela própria exercia censura curativa.

As qualidades de Aurita a tornavam pessoa um pouco diferenciada e mais confiável no trato com familiares e amigos, porquanto nos relacionamentos fluíam energias salutares a higienizar ambientes. Contudo, todas as qualidades esbarravam em algo desequilibrado que pairava durante os momentos de retidão da moça: reclamava muito de tudo o que acontecia, como se reclamações pudessem solucionar desejos não atendidos.

Uma vez que elementos opostos se repelem, sem condições de união, tudo o que Aurita fazia de bom não chegava, de imediato, a excelente resultado, porque, em oposição, energias negativas das reclamações se contrapunham.

As forças negativas das reclamações pouco a pouco ganharam lugar na vida da jovem e as boas atitudes se comprimiam; o resultado do atrito caminhava para anulação dessas boas atitudes.

Aurita não sabia porque mas, às vezes, sentia um aperto no peito, acompanhado de sensação de desânimo e frustração, a respeito de algo não conhecido. Nesse estado emocional sentia vontade de chorar, de abandonar todos os projetos de vida e se esconder do mundo. Exatamente nesses momentos errava na escolha do remédio. Em vez de refletir a respeito e se apoiar na força da fé ou nos bons pensamentos, reclamava e reclamava. Justificava-se, para si própria, no argumento de que pelo menos estava a por tudo para fora. A justificativa, contudo, em vez de melhorar o estado emocional da moça a compelia a reclamar mais e mais. Nesse momento quem a conhecia não se atrevia a dizer algo sob pena de ter como resposta palavras ásperas.

Uma vez que gostava de ler, de estudar, de buscar, tentou algo relacionado com o abrandamento do espírito e até que deu certo, relativamente, porquanto dera um grande passo: admitiu que reclamava e que, a rigor, por propriedade do ser humano, reclamações faziam parte da vida de todos. Não deixou de ser um conforto, dado que não era exclusividade dela reclamar das situações. Mas havia um porém: reclamava demais e o ponto crítico estava exatamente no “demais”. Se reclamar pode ser normal, em se considerando a limitação do ser humano, reclamar demais certamente não pode ser considerado normal. O “demais” se sobrepõe e aniquila o aspecto bom do comportamento da pessoa, no caso Aurita.

Áurea, de sua parte, deu um grande passo, não porque aceitou que reclamava, mas porque percebeu que reclamava demais e esta qualificadora a preocupou sobremaneira. Algo devia ser feito para expurgar a mancha “demais” de suas reclamações e, quanto a estas, que permanecessem na esfera da normalidade da pessoa humana.

Em certo dia de domingo, depois de momentos de crise com seu irmão Pedro, conforme será narrado adiante, Aurita resolveu passear no Jardim Botânico para espairecer o espírito e o peso que lhe fora acrescentado na vida, isto é a consciência plena de que reclamava demais e não sabia como agir.

Sentou-se em um banco do jardim, junto ao lago artificial que represava uma nascente próxima e lançou para longe seus pensamentos. No momento em que fixava o olhar sobre o vão de duas frondosas árvores, cujos galhos se cruzavam no alto, percebeu a ação de dois macaquinhos saguis, também conhecidos como mico, o menor macaco da natureza, em plena agitação nos galhos. Difícil fora afastar a ideia de que não estivessem brigando por algum alimento. Um deles, mais novinho, recebia pancadas do maior e insistia em tirar deste o alimento. Tantos foram os empurrões que o mico menor decidiu buscar, em outro galho, a alternativa de uma frutinha qualquer para saciar seu desejo de alimento.

Aurita foi estimulada a pensar e a refletir a respeito da cena assistida, cena na qual as agressões sofridas pelo mico menor correspondiam às reclamações que ela fazia a respeito dos empurrões da vida.

Concluiu que, para o sagui menor, de nada adiantou reclamar, mesmo sendo da mesma espécie quiçá da mesma família. Seu parente não arredava pé, de modo que, enquanto se alimentava, empurrava o parente frágil.

Veio à mente de Aurita, como se fora uma comunicação disfarçada, a informação de que de nada adiantou para o macaquinho resistir ao que estava a acontecer. A resistência era acompanhada de grunhidos que, naquele momento de reflexão, a moça os equiparou às suas reclamações. Ora, se os grunhidos violentos, acompanhados de tapas e empurrões não resolveram o desejo de comida solidária, o que pensar das reclamações que costumava fazer a respeito de tudo. E mais, não eram apenas reclamações, reclamava demais.

Chegou, para Aurita, o momento de assumir toda a responsabilidade e estabelecer, como regra de conduta, o princípio de que patrulharia a si própria para não sofrer o constrangimento do macaquinho que, por nada conseguir, foi obrigado a procurar alimentos que outros macacos dispensaram.

É regra geral, no plano da vida espiritual, que se percebe a misericórdia de Deus pela dor, porque o amor o ser humano o reserva para outros fins e, quase sempre, no saciar de vontades materiais. A dor levou Aurita ao Jardim Botânicos e aos macaquinhos. A dor fê-la refletir a respeito do desentendimento com o irmão; por conseguinte, a dor não é somente sofrimento, mas o despertar para o caminho do remédio.

Aurita residia em companhia da mãe e de dois irmãos Júlio e Pedro, com os quais mantinha bom relacionamento mesmo porque o pai falecera.

Era mais ligada ao irmão Pedro com quem se associara para exercício de certa atividade econômica, gerida pelo irmão que tinha muita experiência no tipo de negócio escolhido. O irmão era experiente, porém desprovido de recursos financeiros; Aurita tinha recursos financeiro, mas desprovida de experiência. O encontro das condições favoráveis fez com que selassem o desejo de realizações no plano econômico.

Pedro, competente profissional, porém dotado de certa insegurança, fator prejudicial em se considerando que o mundo dos negócios, às vezes, exige arrojo e ousadia. Essa característica do irmão preocupava Aurita, porque o tempo passava e a possibilidade de cessar ou diminuir acentuadamente a fonte financeira era previsível. Com seus botões Aurita imaginou o futuro preocupante e de fracasso se viesse a faltar dinheiro e sobrar inércia por parte do irmão.

Esse estado de preocupação trouxe o resultado da prática de reclamações, não diretamente contra o irmão, mas reclamação a respeito do que poderia acontecer e, segundo ela, poderia ser evitado se o irmão entendesse a realidade do mundo dos negócios com arrojo. Não afirmava que Pedro estava errado, mas que, para ele, estava a vigorar oportunidade para sua realização. Se perdesse tempo este passaria e o fracasso era uma realidade e não um pessimismo.

No início bem que Pedro assimilou a observação que, ainda, não vestia roupas de reclamações. Mudou alguma coisa no modo de administrar os negócios, mas sempre na linha do excesso de cautela, de muitas suposições e, sem aquele arrojo que se fazia necessário e que era o desejo de Aurita.

Pedro continua lento no seu modo de administrar o negócio; em sentido oposto, Aurita era rápida em formular novas reclamações. A cada reclamação, Pedro guardava um ponto que se somava a outro, a outro com a consequente geração de um monstro adormecido.

Um belo dia Aurita solicitou a Pedro algo de somenos e percebeu certo semblante de reprovação por parte do irmão. Porque o desejo não era importante, houve, por parte dela, cobrança a respeito do porquê daquela semblante reprovados. Foi o quanto bastou para eclodir, de lado a lado, as rusgas acumuladas e o relacionamento explodiu como uma bomba dentro de uma garrafa. Os irmãos já não se reconheciam como tais e cada um caiu no valo da desilusão, da frustração e do desespero, sem horizonte azul; ao contrário era negro.

Esse fato abalou a ambos; contudo, quanto a Aurita, completamente arrasada pôs-se a buscar uma luz no fim do túnel, um ponto de sustentação para que pudesse sentir segurança no porvir. Tinha ela absoluta certeza de que, por parte do irmão, o rancor não seria facilmente amainado. A mágoa dele dificilmente seria afastada e já sabia Aurita que a própria vida do irmão seria abalada no relacionamento com outras pessoas. Ele sentia-se humilhado, desprezado e abandonado por todos.

Aurita, sem saber o que fazer, desejava ficar só e daí sua ida ao Jardim Botânico, conforme foi dito linhas atrás.

Em se retomando os momentos do passeio triste, às cenas dos macaquinhos, há que se considerar o que, naquele local florido, aconteceu.

A moça refez, em breve lampejo mental, seus atos passados e fixou-se nas reclamações; concentrou-se na verdade de que reclamava demais. Comparou as reclamações à insistência do sagui menor e concluiu que, para o animal, os atos foram inúteis. Percebeu que também suas reclamações foram inúteis e os efeitos produzidos foram os piores, visto que o desfecho foi a quebra de amizade e amor entre ela e o irmão Pedro.

Quanto ao sagui, tudo bem, dado que é animal irracional e do fato não guardará rancor; Anita e o irmão, diferentemente, são considerados racionais e, por essa condição, guardaram rancor. Mas seria racional guardar rancor? Seria racional, guardar rancor porque reclamava demais?

A jovem meditou muito e com vontade de encontrar solução para o impasse. Pressentiu uma saída, aliás única saída: deixar, imediatamente, de reclamar demais e, melhor ainda, tentar não reclamar em hipótese alguma. É verdade que esta segunda opção é particularmente difícil se se levar em consideração a natureza humana das pessoas; contudo, não era difícil tentar pô-la em prática ou, na pior das hipóteses, exercer ato de auto patrulhamento quanto às reclamações.

Desnecessário dizer que houve mudança, mas não inteiramente, por causa da natureza humana, entretanto o que conseguiu foi suficiente para se vislumbrar a existência de um caminho, estreito é verdade, espinhoso é verdade, mas um caminho que podia ser trilhado porque não se comparava à via crucis do Mestre – que sofreu sem reclamar.

O resultado louvável, a grande lição que de si própria extraiu é a seguinte.

As reclamações primeiras são acolhidas e consideradas pelo interlocutor, tanto que, em regra, nota-se manifestação de solidariedade.
As reclamações, se reiteradas ao mesmo interlocutor, já não são recebidas da mesma maneira e sim com desconfiança de que o reclamante quer dividir o peso que é somente seu.

As reclamações, se continuadas ao mesmo interlocutor este, com certeza, procurará escapar da conversa, dado que, para o interlocutor, o reclamante se transformara em pessoa desagradável e incômoda.

Em face da realidade aqui considerada, o melhor a fazer, em situações que tais, é, de fato, o auto patrulhamento das ações do cotidiano e carregar o peso das provas da vida, visto como estas são de incumbência da pessoa e não das reclamações. O procedimento faz parte da reforma íntima por meio da qual serão mantidos os vínculos de família e, o que também é relevante, não se perderão amigos.
aclibes
Enviado por aclibes em 17/07/2015
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